quinta-feira, 23 de junho de 2011

Despeça-se


Há quem emoldure a própria dor e pendure na parede da sala de estar. Com orgulho mostra o quadro sombrio a quem chega. Sem entender por que a visita foi breve e nunca mais retornou.

Aliás, há tempos que vive apenas olhando o quadro, sem prestar atenção na bagunça que anda a casa, na louça acumulando na pia, nas roupas velhas e desbotadas que ainda veste.

Não há orgulho em sofrer. Não há prêmio para o mártir. Então, despeça-se.
Solte a corda que ainda é o elo com a angústia. Abra as janelas da casa e deixe um pouco de sol entrar. Use uma roupa totalmente nova. Tire das paredes as tristezas penduradas. Depois convide alguém para jantar.

Deixe vir até você. Use seu melhor sorriso e adoce o olhar. Aos poucos, notará que a casa está diferente, embora seja ainda o mesmo endereço.

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