sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A Colcha

Entrei apressadamente em uma loja de artigos para cama, mesa e banho em busca de uma colcha para minha cama. Faltavam vinte minutos para fechar o estabelecimento e eu tentando escolher a combinação perfeita: estampa-tecido-preço. Esta parte foi fácil. Complicado foi responder à pergunta sobre qual o tamanho da cama. Oras! Não lembrava um só momento em que tivesse me deparado com a tal medida do móvel. Mas, procurei puxar pela minha memória fotográfica e cheguei à conclusão de que era uma cama muito grande, portanto, pedi pela colcha maior que houvesse ali. 
Conhecida por minha objetividade nas compras, não levei mais que dez minutos para decidir o que levar, mais uns cinco minutos para pagar e já me considerava uma recordista olímpica só pelo fato de ter saído da loja antes do horário de fechamento. Pensei que seria justo estabelecer este tipo de competição de modo oficial, com direito a entrega de medalha de ouro no pódio. Caminhei pela rua ostentando imaginariamente minha medalha de ouro na categoria “consumo nos cem metros rasos”.
Acontece que essas alegrias superficiais que criamos para passar o tempo na trivialidade costumam vir para pregar peças. Algo como uma pequena lição sobre a arrogância nossa de cada dia que nos dai hoje. Fui estender o artigo têxtil em cima da cama gigantesca e algo surpreendente aconteceu! A cama havia encolhido. Sim, somente esta era a explicação que julguei plausível, realística e aceitável no momento. Como poderia aquela cama ser menor que aquela sensação de vastidão que tenho ao deitar-me todas as noites? Como o espaço vazio que me circunda nela e me acolhe o sono nas noites frias pode ter reduzido? Para onde foram aquelas centenas de centímetros desocupadas do lado direito? E, enfim, quando foi que eu deixei de sentir saudade? Quando foi que eu me deixei?


sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A Luta Continua

Depois de um tempo você não comete mais bobagens. Não dá murro em ponta de faca. Nem insiste no velho erro. Ainda que o erro lhe seja um porto seguro, aquele lugar aconchegante para onde fugimos quando sabemos que fomos um tanto incompetentes na vida. Nada melhor que justificar a teimosia como apenas um dedo podre.

Depois de um tempo você esquece mágoas, rancores, raivas, desgostos... depois de um tempo.
Eu não sei quanto tempo leva para esquecer ou para parar de errar o mesmo erro.


A única coisa que sei é dessa vontade de viver tudo de novo, mesmo que as estatísticas, as profecias, as dicas, os conselhos, as tias digam que nada vai dar certo. Por que no final, tudo dá certo mesmo.

sábado, 4 de outubro de 2014

A tribo

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Surge uma nova tribo no infinito deserto virtual. Eis-me ali. Postada sob a forma de avatar, que é a forma que eu quiser e não a de como sou. Andarilha, nômade em um camelo de megapixels, percorro o caminho óbvio. 

A tribo move-se rápido. Muda o acampamento tão logo esgote o oásis. Mas não há paraísos, é tudo areia. Tudo é grão que se esvai no assunto do momento, na foto mais comentada, na pauta de bobagens.

E quando a tela descansa, finalmente temos paz.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Teoria da conspiração da felicidade e a influência do comercial de margarina

Foco, força e fé. Palavreado bonito igual roupa domingueira. Assim vamos caminhando, humanidade! Com o olho colado no objetivo, vamos perdendo a paisagem. De tanto operar com força, perdemos o sentido e a fé, que nunca cheira bem quando demais...


Achei que virar gente grande era isso aí e dei um “ctrl+c” e “ctrl+v” em um discurso manjado. Foco, força e fé. Marchei rumo ao fantástico país das pessoas vencedoras. Que estrada comprida e deserta! É tanta chatice que não demora muito para estarmos falando sozinhos. Recitando em voz baixa a tríade da motivação. Foco para acreditar que está fazendo o certo. Força para permanecer acreditando. E fé para não duvidar, nem por um segundo, que vencer na vida é viver em um comercial de margarina. Mas deve ser isso que os tais “vencedores” fazem: nunca perdem o foco, a força e a fé enquanto desejam eternamente levar outra vida.

E, lá do alto da montanha das expectativas frustradas, percebo que é mais feliz quem não busca tanto. Que comercial de margarina não passa de 30 segundos e que ainda restam 23 horas, 59 minutos e 30 segundos de genuína felicidade.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Faça amor. Não faça guerra!


Woodstock já era. A música mudou. O sonho acabou. Os ídolos morreram. A geração X foi decapitada pela Y. A Era de Aquarius virou inferno astral. E ficamos chatos...

A globalização mandou camponeses famintos para fábricas de algum tênis de grife, optando por morrer de cansaço do que de fome. O capitalismo selvagem virou atração de zoológico. Em seu lugar, um predador maior: a informação.

As redes sociais surgiram. Tornaram-se obrigação. Aproximaram pessoas para formar grupos e, assim, melhor separar uns dos outros. O telefone não comunica, apenas exibe seu formato novo. “Por favor”, “com licença” e “obrigado” são palavras vintage. 

Professores apanham. Animais de rua apanham. Mendigos queimam pelas calçadas. Alguém acha que outro alguém está enriquecendo urânio. Troca de mísseis em imagens 3D. 

Deus recebeu ordem de despejo junto com Alá, Buda, Tupã e qualquer integrante do grupo dos que possam fazer algum milagre. O Diabo trocou de sexo e, dizem as más línguas, agora se chama Mídia. A direita e a esquerda coligaram-se e o cidadão continua acreditando em duendes.

A comida é transgênica. O remédio é genérico. A educação é medíocre. A saúde mandou lembranças. Habeas corpus para ladrões e assassinos. O lar agora é uma prisão. O leão comendo salários. Os aposentados procurando emprego outra vez. Crianças dançando funk até o chão, ão, ão. O craque já não joga bola, só acende o cachimbo. Os idosos sentem saudade. E os adultos... bem, alguém viu algum adulto por aí?

Enquanto isso, lá em casa, continuamos economizando na conta de luz, da água e separando o lixo, porque isso deixa o mundo melhor, disse o moço da tv.

Por Lígia Cargnelutti
Texto originalmente publicado no blog Bordel Bordado e republicado no Portal Discorra

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Da liberdade...

Já que não consegui ser totalmente livre... que ao menos os cabelos.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Adaptação

Tendo em vista o avanço tecnológico e, consequentemente, uma radical mudança nas relações sociais, foi necessário adaptar o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa e ajustar a conjugação do verbo "curtir", incluindo um novo tempo, o "Imperativo Perfeito do Umbigo". Segue abaixo a nova modalidade de conjugação:

VERBO: CURTIR
IMPERATIVO PERFEITO DO UMBIGO

1ª pessoa do singular: Eu me curto.
2ª pessoa do singular: Tu me curtes.
3ª pessoa do singular: Ele me curte.
1ª pessoa do plural: Nós me curtimos.
2ª pessoa do plural: Vós me curtis.
3ª pessoa do plural: Todo o mundo me curte.

domingo, 9 de fevereiro de 2014