Publicações Extras

A FAGOCITOSE DA FAMOSIDADE
Fagocitose das bactérias botons



Outro dia (embora noite fosse), enquanto lambia rimas de um poema carinhoso feito por notável personalidade, subi no bonde da distração e me deixei levar até onde os pensamentos tolos podem ir: infinito.

Em um desses pensamentos me ocorreu que o poeta é canibalizado por uma tribo de perversas palavras, aprisionando-lhe a alma até que o divino do seu ser seja expelido, esvaído em sangue de tinta nas linhas e letras esparramadas na carne de papel. Assim, um poema é desfazer-se de sua própria composição, seu criador. E é renascimento toda a vez que alguém o recita, deixando a voz dar vida outra vez.

Pensei na grande lista dos poemas favoritos que desde a infância me inspiravam. Pensei nos seus criadores e no tanto de devoração* entre palavras para que um sentir sozinho pudesse ser repetido tantas vezes quanto preces em uma procissão, e assim ser compreendido.

Sempre achei que ler fosse ingerir um tanto de alma, de inspiração, talvez, da divindade de quem escreve. Às vezes o gosto é de amor, de saudade, de compaixão. Outras vezes é de ódio, de frustração, de desesperança.

Então pensei nos milhares que escrevem anonimamente, sem noite de autógrafos, nos bastidores da vida, sem nome no jornal, sem ninguém faminto de lhe desvendar. Apenas anônimos ignorados no mar infestado de enganadores, falsários da própria vida, aspirantes à notícia.

E a fome da fama engolindo a luz do que é bom, do que é belo, do que ilumina. Sem nada a devolver ao mundo, tão somente páginas cada vez mais vazias, daquelas que não se devora nem a vírgula, quem dirá a rima.

* Devoração: aquela palavra tão Djavan na melodia que serve para a vida.


Imagem: Superbug



PÍLULAS DIÁRIAS DE AMOR



Eu quero falar da vaidade. Não aquela loucura desmedida buscando a perfeição física. Quero apenas falar daquelas pequenas coisas que tornam as pessoas mais bonitas para si mesmas. Das rápidas olhadinhas no espelho, nem que seja o reflexo de uma vitrine na rua enquanto você tenta segurar o guarda-chuva e falar ao celular. Dos dedos alisando o cabelo em busca do caimento perfeito que aos outros não faz a menor diferença, mas só você sabe que ficou bem melhor. Sem falar daquele hidratante novo que está gritando na sua bolsa pedindo que chegue logo em casa para experimentá-lo. Dos hidratantes que nem lembramos que proporcionam uma pele mais macia, mas que amamos por que nos permitem o carinho na própria pele. E quando o dia acaba, é hora de se entregar àquele trio maravilhoso banho-cremes-descanso. Olhar no espelho embaçado pelo vapor quente do chuveiro e desenhar um sorriso de quem está de bem consigo mesma.

Vaidade do tipo que não se importa com padrão algum. Vaidade que mora no sorvete de chocolate ou na barra de cereal, por que a única caloria que entende é o calor humano da alegria. Ser vaidosa sem propósito algum, sem precisar agradar a ninguém. Ser vaidosa nas pequenas coisas do cotidiano e deixar a vaidade ter o tamanho suficiente para levar consigo sem lhe fazer qualquer peso.

Longe das imagens de bonecas e princesas, quero ter a beleza de ser mulher. Que as cores dos batons e da tinta de cabelo tenham para mim o mesmo prazer de uma criança colorindo seus desenhos. Que seja leveza e nunca obsessão. Que meu intuito de estar bonita seja para iluminar o dia de todos e não para brilhar tanto até que ninguém mais consiga mais olhar para mim. Que meus próximos sapatos sejam para testemunhar meus passos importantes na vida e jamais para pisar em quem está perto de mim.

Enfim, falo de vaidade como aquela parte de quem me tornei e da qual posso ter orgulho de ser.








Estava eu estacionada ao longo da avenida chamada vida pensando na morte da bezerra enquanto o agente de trânsito de nome Destino surge com multa em punho e olhar acusador. Um daqueles fatos que nos obriga a mexer as pernas e impulsionar o corpo para frente. Alguém chega e bate no vidro te lembrando de que os outros estão passando à sua frente.

O mundo te obriga ao movimento. Parar é proibido. E eu parei sob o pretexto de um brainstorm sem qualquer objetivo. Bateu aquele cansaço de ser útil e fazer coisas úteis em tempo integral. No final do dia você está na exaustão de ter acumulado ações que já nem sabe mais o porquê de ter feito. Por qual razão trabalhei até mais tarde? Por que fiquei com dor no estômago ao terminar aquele relatório? Qual era o motivo de deixar o jantar de lado para concluir um trabalho? Não lembro, simples assim. De repente, perdi o foco dos objetivos.

O cansaço é o pedágio dessa via tumultuada que mais parece um labirinto de rotinas. Todo dia e um dia após o outro. Cansei de ver a mesma paisagem de muros. Então parei e fui dar com os pensamentos em lugares mais divertidos. Fiquei ali despercebida do fluxo de gente apressada, as buzinas de reclamações constantes e os semáforos que ordenam sempre “siga”.

Nessa antiprodução eu fiz mais por mim do que se estivesse em velocidade máxima. Então, Sr. Destino, recolha suas multas que estou em dia com minha vida. Que o caminho seja longo, porém, divertido. E é por isso que recomendo uma quebra de regras vez ou outra para fazer a seriedade saber quem é que manda. 



ESTRESSADINHOS!

Em uma conversa de “gente grande”, com duração de alguns poucos minutos, ouvi mais a palavra “estresse” do que até mesmo as preposições e conjunções das frases. E com direito a toda uma gama de variantes do termo. O que, é claro, me deixou um tanto estressada.

Na tentativa de localizar a causa de tanto estressamento dos interlocutores, percebi que a árvore genealógica do problema remonta à era mais primitiva da humanidade. Em um tempo que morávamos em cavernas e tínhamos que pegar o alimento na marra.

Imaginando o nosso pobre coitado ancestral, vislumbrei sua rotina áspera e truculenta. Tenho certeza de que sua pressão arterial vivia em altos e baixos, o colesterol encalhado nas artérias e os ombros encolhidos por conta da tensão. O sujeito só queria ter uma boa caverna para se abrigar, cruzar com algumas fêmeas de anca larga para garantir a continuidade da espécie e ter algum reconhecimento no bando.

O problema é que cavernas não são coisas fáceis de achar. Provavelmente teve que sublocar algum buraco nas pedras com vizinhos que viviam cochichando sobre seu estranho jeito de preparar o fogo. E o ônus de se ter muitas fêmeas é que elas estão sempre achando que o sujeito não lhes dá o devido valor, preferindo estar ao lado do macho-alfa do bando.

Para ser o macho-alfa é preciso demonstrar coragem. Lá ia o pobre Zé-pithecus tentar caçar o maior mamute da face da Terra para conquistar suas glórias: a caverna espaçosa, as fêmeas e a liderança do bando. Então, seus problemas estariam acabados.

Se tudo desse certo, e o tacape não falhasse, o primitivo ser voltaria ao bando com o tal mamute em pedaços. Mas, e a vida sempre tem um “mas”, um fulaninho qualquer, que nem entendia nada de mamutes mas era jovem o suficiente para ser abusado, esfrega na cara de todo mundo um mamutão. E as fêmeas agora acham o cara o melhor partido, pois precisam de um protetor à altura e um garanhão com genes top de linha para uma futura ninhada.

Eis que o suado e cansado Zé-pithecus enxuga as lágrimas, se arrasta para fora da caverna e vai em busca de outro maldito mamute, sem saber que deu início a uma nova espécie: o Stressaduspithecus eternis.
Agora eu sei que toda vez que o trânsito fica ruim, o chefe te azucrina e a música do vizinho está alta demais, a culpa é do mamute!



HORA DA FAXINA

A culpa é o lixo da alma. O dejeto das ações. Aquilo tudo que fazemos ou deixamos de fazer  produz, de uma maneira ou outra, uma consequência. A grande questão é decidir que destino dar a esse lixo. Muito embora, há quem viva bem ignorando a sujeira que acumula a ponto de nem mais saber como está e como deveria ser. 

O jeito mais rápido de livrar-se desse lixo é recorrer ao pedido de desculpas. Mas sempre achei que, na maioria dos casos, quando vem muito depressa vem despido de sinceridade. É como jogar a sujeira para baixo do tapete bem mais por conveniência do que por consciência. 

Carregar a culpa arrastando-a pela vida com pesadas correntes é tolice. Tem gente que prefere o castigo da culpa a pedir perdão. Seja por vergonha ou por medo de reviver uma lembrança dolorosa. Culpar-se assim é carregar pesados elefantes nos ombros. 

Existe a culpa da mentirinha inocente. Não pesa e é pouco perceptível. Mas, acumula-se com facilidade absurda, feito poeira pelos móveis da casa. Sempre chegará o momento da limpeza.

No entanto, a mais repulsiva das culpas é aquela que nasce em nossas próprias vontades. Quando sabemos que estamos errados e, ainda assim, persistimos na atitude. Um lixo consentido, produzido de propósito e disfarçado sob o spray do cinismo. 

A culpa negada é degradante. E fica ainda mais repugnante quando é despejada no quintal alheio. Apesar de todo o esforço em despejar a culpa em outro alguém, o cheiro pútrido não abandona o autor do ato. Agora, além da culpa, a vergonha. Por fora mantém a fachada enfeitada, mas dentro de si, não há como disfarçar covardia e fraqueza.

E assim perambulamos pelo tempo e pela vida, cada um com seu lixo. Uns dando fim, outros acumulando. Pode ser furar a fila do cinema ou culpar um colega de trabalho por um erro que é seu. Pode ser lograr o troco ou obter vantagem pela boa fé alheia. Não importa como, se está sujo, limpe.



NO ESPELHO

Amadurecer é preciso, mas sem perder a jovialidade (parafraseando um famoso líder), é assim que percebo a fórmula de viver bem. Só há um problema: o que é a jovialidade? Todo mundo tem sua própria concepção da fonte da juventude. Envelhecer vai além de enrugar a pele, sentir a força da gravidade, esquecer com facilidade, sofrer de dores pelas articulações. O tempo, o corpo e a mente, essa tríade eternamente mal resolvida. 

Alguns dias acordo bem mais velha, alguns dias acordo criança. E, em um único dia, todas as idades passam por mim. É difícil manter essa tal jovialidade em tempo integral. Sem contar os momentos em que pareço estar atemporal. Me pego em sentimentos infantis em momentos que os outros esperam de mim a balzaquiana que sou. Por vezes, deixo a criança interior de castigo e visto a face ranzinza de quem já enjoou de tudo.

Sem saber precisar o dia exato, aconteceu de eu ter amadurecido. Nem falo desse invólucro chamado corpo. Foi questão de tomar consciência, ou, como diria minha avó, criei o tal juízo. De repente, não senti vontade de acompanhar os amigos naquela cervejinha, não saí na sexta-feira à noite, decidi guardar dinheiro, fiz uma lista para ir à farmácia, parei para ouvir minha mãe, programei uma viagem com roteiro gastronômico, me preocupei com o futuro, até faria um testamento (se houvesse algo a deixar). Mas, isso sou eu. Cada pessoa sabe bem o que mudou em si. Não há uma lista igual para todos. 

Pude me ver em uma panorâmica e, pela primeira vez, atinei para os detalhes. Porque quando somos muito jovens tendemos a deixar escapar certas nuances da vida. Uma atitude, um gesto, um modo de fazer e ser sempre em velocidade máxima. A juventude é tudo aqui e agora. 

A vida é como uma fórmula de matemática, você passa muito tempo fazendo cálculos por ela sem se preocupar em descobrir para quê ela serve, pois o tempo da prova parece curto demais para desperdiçar. Amadurecer é adquirir a serenidade suficiente para entender o processo, afinal, a prova não é mais importante. Rejuvenescer é abrir a mente de deixar que o vento areje as ideias. Vejo tanta angústia em torno da idade cronológica. Se a morte é irremediável, não faz sentido viver com os olhos voltados a ela. 

Desse jeito eu vou, sendo velha e jovem, seja de cara ou sensação. Que da minha embalagem não levarei nada além da energia que emana. De repente, pode até ser que eu fique mais sábia e deixe o juízo de lado mais uma vez.



AMARELOS E ROXOS

Existe a censura. Sinto-me coagida a calar. Minhas opiniões pessoais são frutos da minha trajetória, das coisas que vi, vivi, aprendi, ouvi, observei de longe, por vezes, de perto. São como as digitais dos meus dedos que indicam que ali sou eu. 

Tenho pouca coragem de encarar o apedrejamento moral. Moral de cueca. Também tenho pouca pretensão em mudar o mundo, confesso. Então, resta-me a zona de conforto. Não digo tudo o que penso. Se acaso engasgo com a vontade de me expressar, faço troça, graça, quase maquiagem. 

Não faço referência à opinião banal. Longe dessa frugalidade, falo de opiniões que facilmente transformam uma gota de água em tsunami. Incrível como tudo parece ser passível de virar polêmica, generalização e motivo de rivalidade. Já não se pode mais gostar de amarelo se o roxo é a regra. Gostar de amarelo e assumir o gosto é como ofender toda a gama de tonalidades roxas. Talvez você até curta alguns tons arroxeados e, em alguns momentos, não ache tão bonito o amarelo. Não interessa. Não sei quem ou quando, mas alguém determinou, e tantos outros seguiram: amarelo é ruim. Logo, você é ruim. 

Tenho tido dificuldade crescente em reconhecer a polêmica de certas polêmicas. Vejo apenas uma discussão sem fundamento, sem propósito. Quase um ringue de luta cruel que, em muitos casos, termina mesmo em violência física. 

Acho bonito o quanto algumas pessoas afirmam veementemente que não se importam com o que os outros pensam. A meu ver, mera defesa pessoal. Importam-se, pelo simples fato de serem humanos. Talvez, algumas pessoas tenham atingido um grau de cinismo tão elevado que realmente acreditam que estão protegidas pelo desprezo a tudo e a todos. 

Realmente optei por deixar de dizer. Mas, jamais por concordar para ficar confortável. Jamais calar para consentir. Se chamada para me posicionar, não fujo, assumo. Gostaria de ter a empáfia de cuspir no mundo minha visão das coisas, dar a cara a tapa. Não tenho. Admiro quem encara. Mas são chateações que não quero ter. Eu ando mais preocupada em resolver coisas como cuidar da saúde dos meus pais, criar oportunidades de crescimento profissional, adquirir mais conhecimento, saber se meus amigos estão bem, não errar de novo no corte de cabelo, ter dinheiro para uma viagem no final do ano... Posso parecer omissa, mas acho que faço mais pelo mundo do que a maioria dos que iniciam discórdias eternas. Quem sabe seja por lembrança daquele velho ditado “quando um não quer dois não brigam”.

Eu gostaria apenas de respeito, não por mim, mas pela conquista que está sacramentada no artigo 5º da Constituição Federal, inclusos todos os incisos e parágrafos. Gostaria de respeito aos que morreram lutando para que, hoje, um ignóbil qualquer tenha o direito de usar sua liberdade de expressão para coagir outros a permanecerem em silêncio. Compreensão não por que a lei ordena, mas por que nossa essência assim nos conduz.





O JOGO



Existem dois tipos de ambição: a vontade de crescer e a ganância. Eu já conheci os jogadores de ambos os times. A princípio, muito parecidos, mesmo discurso, vislumbrando o topo do mundo, incansáveis. Mas são nos detalhes de suas estratégias que se distinguem de fato. O jogo do ganancioso é feio, é torto e vil. Para ele, pessoas são ferramentas a serem usadas.

Quem deseja crescer, vê no outro uma inspiração, uma lição a aprender. Caminha na trilha dos seus objetivos sem menosprezar a ajuda recebida. Tem em mente que família, amigos e colegas são parte da jornada. O ganancioso nunca se satisfaz, tem pressa e tende à mania de perseguição. Comemora solitário as suas pretensas vitórias, pois faz de seus aliados possíveis inimigos. Não se inspira, apenas inveja.

O jogo da ganância não admite empates, prevê embustes, considera o fracasso alheio a sua motivação. Eu vejo acontecer todos os dias, em todos os lugares. Nesta tênue linha que separa um time do outro, fica cada vez mais difícil observar de que lado nós mesmos estamos. É bem mais confortável apontar o dedo na cara alheia. 

Ninguém vence sozinho. Somos todos soldados avante na luta. Talvez meu objetivo não seja o mesmo que o seu. Talvez estejamos angustiados com a concorrência que só existe na nossa cabeça. Minha ideia de topo do mundo pode ser o abraço e o afago dos que me amam. E, talvez, o seu seja uma vida segura para seu filho. Pode ser que seja trocar de carro no final do ano, pode ser a casa nova ou aquela viagem à Paris.

Seja lá o que for, que conquistemos juntos, embora as vitórias tenham seu próprio tempo para chegar. O fundamental é não nos perdermos de vista, não nos perdermos de nós mesmos. Que a ambição seja para o crescimento e jamais para o endurecimento da alma. 



A CURIOSIDADE MATOU O GATO

A curiosidade matou o gato. Mas aposto que mata mais gente do que bichanos indefesos. A tragédia sempre tem público. Um ciclone extratropical anunciado e alardeado passou varrendo o sul do país. Nem bem o vento acalmou, ainda com raios rasgando o céu, já havia um batalhão de pessoas a postos pelas ruas. Voluntários para ajudar? Não. Era um exército de curiosos pela desgraça alheia. 

Daquelas pessoas que saboreiam páginas policiais, programas sensacionalistas na tv e coisas assim. Ficam excitadas ao ouvir uma sirene de ambulância, bombeiros ou polícia, capazes de empreender perseguições às viaturas só para ver do que se trata. Não se contentam em atrapalhar o trânsito, bloquear a passagem e dificultar o socorro. Armados de aparelhos celulares com câmeras de alta resolução e baixo senso de racionalidade. 

Tenho extrema dificuldade em entender esse gosto pelo sinistro. Aliás, percebo uma certa frustração nas falas quando referem-se a acontecimentos em que não houve derramamento de sangue, ossos quebrados ou alto grau de destruição material. Quase como um público que pede o dinheiro de volta por não ter gostado do espetáculo. 

E eu tenho certeza de que o gato morreu foi de desgosto, pois andamos fazendo concorrência ao mundo dos ditos irracionais.





ENSINA-ME A VIVER

As melhores frases foram as que eu não disse. E o tempo levou embora a oportunidade. Fiquei de mãos vazias à sombra da saudade. Eu nem sei por que eu não disse. As frases mais duras eu repeti, tantas vezes quanto o martelo que afunda a estaca na madeira. Fui incansável na acusação, implacável no julgamento e insaciável na sentença. E não era importante. Aquilo que eu pensava era do tamanho do grão de areia no deserto. Mas foi o que ficou. Aprendi da maneira mais difícil, que é quando perdemos alguém que amamos.

Há de se ter cuidado nas palavras. Ninguém precisa dizer tudo o que está sentindo, nem fazer uso disso para pequenas vinganças. A vida transcorre sem se importar com o que você faz. É tudo feito de causa e consequência. É preciso extrair o melhor de tudo o que vivenciamos. Pois as lembranças morarão para sempre nos detalhes. Viver não é encher-se de certezas, é ter dúvidas o tempo todo.

Todos os dias, alguém chega e alguém vai. Que a partida dos que amamos não seja feita de arrependimentos e remorsos. Precisamos ser mais leves, mesmo que o fardo seja pesado. Precisamos nos ocupar mais em ouvir do que falar. Precisamos olhar mais a nossa volta do que apenas para o próprio umbigo. Menos discursos, mais ações. Menos sobriedade e mais fantasia.

E toda vez que encontrar alguém pelo caminho, que a humildade me permita admitir que ainda há muita sabedoria a aprender. Sendo assim, ensina-me a viver, meu amigo.






FAÇA AMOR. NÃO FAÇA GUERRA!



Woodstock já era. A música mudou. O sonho acabou. Os ídolos morreram. A geração X foi decapitada pela Y. A Era de Aquarius virou inferno astral. E ficamos chatos...

A globalização mandou camponeses famintos para fábricas de algum tênis de grife, optando por morrer de cansaço do que de fome. O capitalismo selvagem virou atração de zoológico. Em seu lugar, um predador maior: a informação.

As redes sociais surgiram. Tornaram-se obrigação. Aproximaram pessoas para formar grupos e, assim, melhor separar uns dos outros. O telefone não comunica, apenas exibe seu formato novo. “Por favor”, “com licença” e “obrigado” são palavras vintage. 

Professores apanham. Animais de rua apanham. Mendigos queimam pelas calçadas. Alguém acha que outro alguém está enriquecendo urânio. Troca de mísseis em imagens 3D. 

Deus recebeu ordem de despejo junto com Alá, Buda, Tupã e qualquer integrante do grupo dos que possam fazer algum milagre. O Diabo trocou de sexo e, dizem as más línguas, agora se chama Mídia. A direita e a esquerda coligaram-se e o cidadão continua acreditando em duendes.

A comida é transgênica. O remédio é genérico. A educação é medíocre. A saúde mandou lembranças. Habeas corpus para ladrões e assassinos. O lar agora é uma prisão. O leão comendo salários. Os aposentados procurando emprego outra vez. Crianças dançando funk até o chão, ão, ão. O craque já não joga bola, só acende o cachimbo. Os idosos sentem saudade. E os adultos... bem, alguém viu algum adulto por aí?

Enquanto isso, lá em casa, continuamos economizando na conta de luz, da água e separando o lixo, porque isso deixa o mundo melhor, disse o moço da tv.

Por Lígia Cargnelutti
Texto originalmente publicado no blog Bordel Bordado e republicado no Portal Discorra

__________

OI, MEU NOME É AMOR!

Honestamente, eu preferia falar de amor. Mas decidi falar de desapego. Porque acho que amor é uma forma de desapego de si mesmo. É aquele sentimento que faz você parar de pensar somente em si e desejar o bem a outro ser humano.

Fico observando esta loucura inventada e que chamaram de Dia dos Namorados. Um dia para comemorar o amor. Já que nos outros 364 dias estamos tão ocupados que ele passa num relance e só é notado mesmo quando vem uma briga.



Os apaixonados recentes, os enferrujados, os eternos, os efêmeros, os distraídos, os obcecados, não importa, o amor está no ar. Está nas vitrines das lojas anunciando amor em liquidação. O amor outlet, dos que estão buscando-se, com urgência e sem paciência, para não encarar a data fatídica curtindo a solidão.

Esta é a época que o amor está em alta, é tendência nas ruas, quase obrigação. Presentear é preciso. Contabilizar o valor do presente, comparar com os de outros anos ou de outras pessoas, frustrar-se que o amor não veio na embalagem correta e trocar o amor no dia seguinte apresentando a nota fiscal. Então, não vejo muito amor nisso aí!

Ainda assim, em alguns lugares, casais estarão comemorando, com a cabeça encostada no peito amado, um “eu te amo” em forma de suspiro e as mãos tocando-se sem notar. Uma atenção, um carinho, um afago... amor é desapego.


Por Lígia Cargnelutti
Texto originalmente publicado no blog Bordel Bordado
Imagem: Geisa Cruvinel

__________

DA CORAGEM



Ser mulher é um ato de coragem. Falo mulher não em termos da pseudo-feminilidade propagada nos vestidos super justos e sapatos arranha-céus. Não me refiro a uma exposição de candidatas a Barbie, como tenho visto o que uma boa parte das mulheres almeja. Eu falo de mulheres. As filhas, as mães, as avós, as colegas de trabalho, as profissionais, as amigas de infância, as admiradas, as esquecidas, até mesmo as detestadas.


Há de se ter coragem para ser e envelhecer e, ainda assim, aceitar.


Há mais ou menos um mês atrás minha mãe tomou uma séria decisão. Deveria ser uma decisão banal, mas ela fez-se mais séria do que se imaginava. Decidiu deixar de pintar o cabelo e assumir os fios brancos.


Antes de decidir, ela vinha perguntando a mim e à minha irmã o que achávamos disso. De cara eu disse que aprovava e que ficaria bonito. Passou-se um tempo e fomos a uma festa de família onde ela pode cair na real sobre o assunto. Falando de sua ideia com outras mulheres da mesma faixa etária, tristemente ela descobriu o quanto há de preconceito nisso vindo justamente de nós fêmeas.


Foi, então, que entendi o quanto de coragem precisamos diariamente, mesmo para fazer coisas simples, decidir sobre o próprio corpo, aparência. Estamos amarradas ao que os outros esperam de nós. Precisamos ser lindas e padronizadas. Nossas rugas são motivo de vergonha? Nossos cabelos brancos são desonrados? Quando foi que decidimos que é tão insuportável envelhecer a ponto de precisarmos usar disfarces? Quando foi que estabeleceram que, para ser feminina, é necessário ser artificial?


Minha mãe foi corajosa. Pensou sobre o que queria para si e livrou-se daquele peso: seus cabelos tingidos. E eu, verdadeiramente, acho lindo.



Por Lígia Cargnelutti
Texto originalmente publicado no blog Bordel Bordado

__________

A.M.A.R. VERSÃO BETA




Amar dá preguiça. Amar tornou-se um aplicativo pesado demais para rodar no meu hardware chamado Coração. Ele me exige tempo e dedicação. Eu preciso compartilhar o meu tempo com outros aplicativos, que me parecem ser menos complicados como Dominar o Mundo e Atravessar Paredes.

Amar é o tipo de aplicativo que ocupa toda sua memória. Qualquer pensamento seu fica amarrado em lembranças de momentos com o ser amado.  Isso afeta diretamente o funcionamento de outros aplicativos como Alimentação, Dormir e Visitar Amigos.

Quando você está operando neste aplicativo, é importante saber que seu Coração entrará em conflito com os aplicativos Controle do Ciúmes e Racionalidade. Será muito difícil manter tais programas atualizados e você nem vai notar que pararam de funcionar.

Amar é difícil. Possui comandos complexos e nenhuma tecla de atalho. Recomenda-se visualizar uma janela de cada vez e, no caso de tentar inserir mais janelas, nenhum dado poderá ser salvo no diretório Bom Senso.

Antes de começar a utilizar a versão mais avançada de Amar, é importante saber que o compartilhamento de dados em redes sociais torna o aplicativo muito instável. Podendo ocorrer a desativação automática do mesmo.

Versões mais antigas do programa podem não funcionar de modo satisfatório para usuários que não utilizam a plataforma Dedicação. Recomenda-se que seu hardware Coração venha equipado com várias entradas USB Carinho 2.0 e pelo menos uma conexão para Respeito Mútuo. Devendo, ainda, ter alta capacidade de resolução nas entradas e saídas chamadas Diálogo.

No mais, Amar é um aplicativo potente capaz de realizar tarefas impossíveis e com uma interface que te faz uma pessoa mais bela, que enxerga o mundo de modo mais interessante e que tem atitudes mais humanas.

E se você estiver disposto a utilizá-lo, que seja por amor realmente!

Por Lígia Cargnelutti
Texto originalmente publicado no blog Bordel Bordado
Imagem retirada daqui

__________

CRIANDO MONSTROS

Já repararam o quanto incomoda uma pessoa passar por você e não te notar? Um mero “bom dia” esquecido de ser transmitido naquela pressa matinal. O elogio sobre a roupa nova que você estreou em um dia que começou atribulado. O sorriso de satisfação que não veio enquanto você chega à reunião que já estava em andamento. Ou seja, uma única das centenas de  minúsculas situações cotidianas que alguém ousou deixar em branco, te deixar no vácuo. Logo você que está 100% sorridente com todos, que nunca se esquece de cumprimentar ninguém, que lembra todos os aniversários (incluindo do porteiro, da vizinha do 601, do carteiro...), que injustiça, não é mesmo?


Twiggy

Que pessoa cretina e insuportável é esta que se atreve a te ignorar enquanto a vida está passando a galope! Logo, é uma pessoa antipática. Fica decretado que ali não haverá amizade. E fecha o tempo se outro amigo disser que até acha aquela pessoa legal. Como assim??? 

Como confundimos a antipatia com a arrogância! E, assim, nos defendemos sendo mais arrogantes ainda. Aquele que não entendemos, não desvendamos logo de cara, torna-se inimigo. Não interessa se torcemos para o mesmo time de futebol ou se os filhos estudam na mesma classe. Só interessa ser o vencedor da disputa de egos.

Nessa cegueira teimosa, vamos reduzindo nossos vínculos. Aquela antipatia que vejo no outro, agora já é minha. Pois, a esta altura, nem noto mais a gentileza feita ao deixar que eu entrasse primeiro no elevador, ou o olhar interessado em puxar assunto sobre o livro que está lendo. 

Esperamos tantas atitudes perfeitas dos outros. Quase sempre esquecendo de policiar a nós mesmos. É fácil cobrar a atitude que não temos. Ainda somos crianças na escola da vida, somando com poucos no intuito de dividir o todo. Então, me pergunto: quando cresceremos?

Por Lígia Cargnelutti
Texto originalmente publicado no blog Bordel Bordado

__________

SOBRE PRINCESAS E BRUXAS

Eu, particularmente, culpo os contos de fadas pelo caos estabelecido nas relações afetivas. Um conto de fadas é uma junção de vários elementos surreais em um enredo fantástico e com um final utópico. Temos uma moça indefesa que sofre nas mãos da bruxa má e um salvador que é um príncipe. Depois, arremate tudo com um jargão “...e viveram felizes para sempre!”.

Ok! Agora vamos aos fatos. Primeiro, a moça indefesa é uma sonsa servindo de inspiração para o comportamento de umas e outras por aí. Segundo, o príncipe não passa de um playboy pagando de gatão. Terceiro, a bruxa... hum, a bruxa me parece a mais sensata de todos. Ela está mais próxima da realidade. Ela sabe o que quer, sabe como conseguir e ela vai à luta. Tudo bem, ela usa meios nada ortodoxos e tal, mas ninguém é perfeito.



Não tenho vocação para ser a moça sofredora. Aquela que sempre arruma uma desculpa para se trancar no quarto e chorar ouvindo músicas da Adele. Aquela que é a eterna injustiçada, que posta dia e noite na rede social frases sobre como as outras pessoas a invejam e que não suporta a falsidade. Deseja muito conhecer um cara rico e que adore trabalhar duro para pagar seus luxos, sem jamais cobrar a conta da mocinha. Eis a princesa moderna dos contos de fadas!

Não tenho vocação para desejar um príncipe, encantado ou não. O sujeito é pomposo, de corpinho sarado e posa para fotos onde aparece com um baldinho do que ele chama de “champa” com umas 4 ou 5 moças de aparência padronizada à sua volta. Ele é um príncipe, seja porque nasceu em berço de ouro ou porque ele realmente acredita que é assim que todos devem o ver. Ele acha que a única mulher que realmente presta é a sua mamãe, mas, ainda assim, vai convencer a mulherada de que ele é um romântico nato. Ele não tem um alazão, mas uma centena deles no motor do seu carro rebaixado no qual passeia lenta e irritantemente a fim de ser notado. Definitivamente, eu não quero um príncipe.

Foi então que eu descobri que devo ser a tal bruxa. Com mais caráter e menos agravantes no comportamento, claro. Sou egoísta, ciumenta, vaidosa. As mocinhas de plantão nunca foram minhas amigas. Eu gosto de andar com gente batalhadora, que dispensa o discurso de mártir e usa o verbo para te fazer sorrir. Minha moral não é exemplar. Meus fins nem sempre justificam meus meios, mas eu caminho por mim e não espero encontrar alguém que me carregue. Sim, devo ser a bruxa! Eu também amo e também choro. Eu também grito e brigo. E tudo isso é real e imperfeito. Trabalho, conquisto e luto para defender meu espaço.

Sobre contos de fadas e finais felizes para sempre, que permaneçam nas páginas do livro.


Postado por Lígia Cargnelutti
Texto originalmente publicado no blog Bordel Bordado

__________

MARIA, NÃO VÁ COM AS OUTRAS!



Muitas mulheres reclamam que os homens confundem educação com outra coisa. Muitas mulheres enchem a boca para chamar a concorrente de “vadia”. Muitas mulheres reclamam que os homens só querem sexo. Muitas mulheres reclamam...

Então, observando, mais por distração do que por interesse, vi algumas mulheres tratarem homens como portadores da peste negra, apenas por que eles chegaram perto e disseram “oi”. E quando foram os caras certos, estas mesmas mulheres fizeram de tudo para exalar feromônios, valendo deixar os indivíduos excitados ali mesmo, sem importar a plateia. E as mesmas mulheres são aquelas que lidam com a rejeição apelando para a difamação (chamar de boiola e de impotente, por exemplo). 

Sim, a temida rejeição! O fantasma que assombra o relacionamento e até mesmo o quase-relacionamento. O que leva a fazer o que o outro pede, ainda que seja contra a própria vontade e de aspecto repugnante para o espírito. Teme-se a rejeição mais do que a humilhação de permanecer no barco afundado.

Mas muitas mulheres reclamam dos homens que aproveitam o momento, enquanto homens reclamam das que não tiram proveito nenhum e todos seguem confundindo tudo.

Falta envergonhar-se mais das coisas que realmente são vergonhosas antes de sair carregando o estandarte da revolução feminista. Compreender que mulheres não são homens e direitos iguais perante os sexos não significa agir igual ou imitando os defeitos.  É hora de decidir se é uma mulher ou se faz parte do grupo das muitas mulheres que se anulam. 


Por: Lígia Cargnelutti
Texto originalmente publicado no blog Bordel Bordado

__________

DOCE VENENO



Eva era uma boa menina, mas vivia entediada com seu Adão. De repente, surgiu uma serpente e mudou tudo. Foi quando a história começou a ficar boa.
Aposto que aquela maçã era deliciosa! Eu teria mordido também. Não posso condenar minha antecessora. E, todos os dias que se sucederam ao Paraíso, as Evas continuaram mordendo maçãs por aí.

Afinal, ninguém quer passar a vida sendo eternamente costela. O único problema é que, além da possibilidade de aventurar-se mais, adquirimos um tanto da personalidade da serpente. 

Talvez isso explique por que homens são mais solidários uns com os outros, enquanto mulheres se esforçam para envenenar umas às outras. 

A amizade entre duas mulheres só acontece depois de ambas medirem todas as suas forças e fraquezas. Nunca enquanto a competição ainda for instigante.
Como competidoras, jogam na base do ‘vale-tudo’. Vale amaldiçoar, sabotar, difamar, rasteira, voadora. Vale até jurar amor eterno, emprestar o ombro amigo, escrever naquela foto “te adooooro, amiga!”. 

Mulheres adoram mesmo é competir: melhor sapato, maior bunda, melhor amiga, etc. Mulheres competem tanto que chegam a esquecer a razão de estarem competindo. 

Mas, debaixo desse manto venenoso, ainda há a boa menina em eterna dúvida se morde ou não as maçãs que a vida oferece.

Por Lígia Cargnelutti
Texto originalmente publicado no blog Bordel Bordado

__________

UMA FANTASIA PARA A VIDA REAL



Está tudo muito estranho neste mundo esquisito. Nunca pensei que poderia haver o preconceito do preconceito. A coisa toda chegou ao limite do patético. Daí por diante só há o abismo. Estamos todos espremidos caminhando na beirada, um tentando jogar o outro ladeira abaixo. 

Basta dar uma passadinha pelas redes sociais e ver a confusão. A moda é compartilhar, nem que seja a própria boçalidade. Parece mais uma guerra de gangues por domínio de território. Homofóbicos x heterofóbicos. Ateus x religiosos. Roqueiros x sertanejos. Fica a sensação de que você precisa pertencer a um dos times que estão em jogo. 

O bem e o mal. E uma multidão matando e morrendo para defender aquilo que deveria ser completamente pessoal e intransferível: o gosto. Meu gosto por música, meu gosto por roupas, meu gosto por comida, meu gosto por pessoas...

E gosto muda. Aliás, mudar para evoluir. Até o corpo muda a cada minuto, por que haveria de ser o gosto uma coisa estática? De onde veio esta ditadura do comportamento? 

E não culpem o governo, a novela das 21h ou o Papa. Culpem a própria arrogância. E arrogância é um orgulho desmedido de ser mais do que se é. 

Enquanto isso, o Carnaval. Mas agora me deem licença que preciso postar no Facebook um meme contra pessoas que usam pochete.

Por Lígia Cargnelutti
Texto originalmente publicado no blog Bordel Bordado

__________

DAS FÊMEAS

Muito já foi dito exaltando as qualidades femininas. Embora eu seja mulher, devo ser uma das mais críticas a respeito do gênero. Acho que ainda há muita confusão sobre o que realmente vale a pena defender no universo feminino. Mas são críticas com conhecimento de causa, o que deve conferir a mim uma espécie de anistia. 

Por outro lado, é inegável que somos mais guerreiras perante a vida. Ou você nunca viu um machão resmungando pelos cantos por um simples resfriado?!  Queria ver encarando a bomba hormonal na TPM, aguentar dias sangrando, expelir uma melancia por um buraco que só passa um limão. Cuidar da prole, dar atenção a todos, comprar sapatos e ser chamada de fútil, provar que é mais competente que o colega que usa cueca, fazer depilação com cera, passar 3 horas no salão, manter a pose no salto 15, cuidar para não ficar gorda, não ficar muito magra, não ter celulite, aturar ofensa no trânsito, manter afastadas as vacas e as galinhas, lembrar-se de não reclamar muito por que ele não gosta de ouvir suas queixas, fazer de tudo para não ter rugas, ter boa saúde, ter sempre um sorriso, disfarçar as rugas, estar a par das últimas fofocas, fingir que gosta da mãe dele, aceitar as rugas, cuidar dele, cuidar dos filhos, cuidar do cachorro, cuidar da casa, ter unhas bem feitas, saber cozinhar, pregar os botões da camisa, ser bonita, ser sexy e sempre disposta, enfim, ser mulher. 

Apesar dos esforços, temos como recompensa muito pouco em troca. É quando o sujeito reclama de buscá-la no salão, reclama que as crianças estão barulhentas, exibe a barriga proeminente, já não faz mais a barba, acha bobo quando ela chora, tenta comprar seu perdão com flores escolhidas pela cunhada, passa 8 horas no sofá, pensa que é piloto de fuga no trânsito, discute com o garçom, acha que todas as colegas de trabalho são burras, corre para o colinho da mamãe, chora igual um bebezinho, tem rugas, cabelos brancos, ou nem tem cabelo, não desgruda do chinelo, reclama que ela só sabe gastar, roi as unhas, critica as amigas dela, enche a cara e manda-a dirigir, reclama dela na direção, leva o cachorro para passear, reclama de ir ao shopping com ela, frita ovo e faz miojo, paga de gatão com a mulherada alheia, nunca pede informação, sente-se muito macho por abrir um vidro de conserva, chora igual um bebezinho... ops, já falei isso? 

Por essas razões, minha cara, pare de aparentar ser a Mulher Maravilha, se toda mulher já é maravilhosa por natureza. É em vão tentar agradar a todos. Não precisa maquiar demais quem você é. Limpe o rosto e abrace o mundo. Por que estamos podendo sim!


Por Lígia Cargnelutti
Texto originalmente publicado no blog Bordel Bordado