quinta-feira, 30 de maio de 2013

Tempo perdido é tempo não vivido!

Ah, o arrependimento! Palavrinha feia e amargurada. Mora no tempo passado e não aproveitado. Mora no tempo perdido da escolha errada. Mora na intenção que não virou ação. Agora mora no meu pensamento, fazendo fronteira com o desejo que não realizei. E o cálculo é simples: o arrependimento aumenta na mesma proporção do desejo. Faz o querer ser mais urgente. Na urgência, revelo minha intenção, coloco em risco meus planos de conquista. De dominação passo a dominada pela necessidade de ter de volta o momento exato em que não disse, não fiz, não vivi. Arrependimento, teus dias estão contados!


sexta-feira, 24 de maio de 2013

O amor, o motor e a vida


Eu tenho uma grande paixão: carros. Mas não daqueles fanatismos por detalhes e ficha técnica completa de um automóvel. Eu curto carros, sem compromisso de me tornar especialista. Gostaria de realizar todos os meus desejos consumistas neste quesito, mas minha condição financeira me deixa a opção de apenas uma escolha, e uma escolha bem restrita.  

Meu primeiro carro foi um modelito bem popular. De um verdinho-água metálico, com motor singelo, um nanico de boa fé. Com ele fui muito feliz, viajamos por estradas de todos os tipos. Me acompanhava bravamente mesmo quando eu exigi mais do que poderia. Dia ou noite. Chuva ou sol. Companheirão! Com o tempo, comecei a me interessar por outros. Sei lá, queria me aventurar mais e ele reclamando do meu ritmo.

Um dia, passando por uma revenda, troquei olhares com outro carro. Não foi intencional, juro! Apenas aconteceu. Ele era tudo o que eu vinha procurando: forte e bonito. A paixão foi tão intensa que eu até ignorava aquela cor prata e as rodas feias. Comprei-lhe rodas novas, tratei com carinho. Mas as viagens foram ficando escassas, até tornarem-se tão somente planos, sem nunca sobrar tempo para que ele me mostrasse tudo o que tinha para oferecer.

Assim, a relação foi se desgastando na mesmice. Idas e vindas constantes em oficinas. Tornou-se um fardo. Tentei levar adiante. Eu tentei. Há algumas semanas atrás, saímos rodar um pouco. Macio na estrada, obediente nas marchas e esperto nas rotações. Foi perfeita sincronia.

No dia seguinte, ele acordou reclamando. Atravessou a cidade aos solavancos, duro e indiferente. Qualquer relevo da rua era motivo para uma infinidade de barulhos. Talvez a terapia da mecânica pudesse resolver, mas a questão é que era hora de cada um seguir seu caminho.

E como toda relação que chega ao fim, mesmo que seja em um consenso, foi triste. E o deixei na concessionária onde conheci meu carro atual. Que, por sinal, tem aquela mesma cor irritante prata. Agora estou com um 1.8, de câmbio automático e com umas manias meio esnobes, mas confiável e seguro. Não temos aquela relação de aventura, mas estamos nos conhecendo e, aos poucos, talvez eu até aprenda a gostar de ser comandada por um câmbio automático arrogante. Por hora, sentindo saudade de ouvir a rotação e acelerar do jeito que minha alma gosta. 

terça-feira, 21 de maio de 2013

A memória das coisas que não vivi

Existe um gosto na minha boca de um doce que jamais provei. Mas sei que é doce e sei que é suave, feito as histórias ouvidas no colo dos meus saudosos avós.

Uma outra vez lembrei da carta de amor que nunca recebi. Mas sabia de cor as palavras nela escritas. Sabia com o coração de quem tinha saudade.

Lembro, como se tivesse sido ontem, da festa de aniversário de bem antes de nascer. Pois minha alma peregrina, teimosa de vida, não me deixa esquecer.

Certa vez lembre da música que não dancei por ter sapatos apertados demais. E lembrei, também, do vestido novo, cor de alfazema, que nunca tive. Lembrei do orvalho da manhã que não vi chegar enquanto deixava o corpo dormir.

Eu tenho em mim todas as lembranças de todas as vidas que pretendi. Mas, escolhendo viver somente uma, restaram-me apenas os recortes que fiz e colei no mural da minha imaginação. Assim, o que não esqueço, ainda sinto como se eu pudesse realmente ter estado ali. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Das lutas



A luta contra a homofobia é uma causa importante, pois lida com o direito que qualquer indivíduo tem de não ser discriminado e/ou agredido por conta de sua opção sexual. Mas é estranho como o tema perdeu o foco e a função. E cabe aqui ampliar para muitas outras causas que acabam se perdendo nessa babilônia de opinião furada sem atitude alguma.

A impressão que tenho é de que há uma multidão enlouquecida e ansiosa por parecer politicamente correta e moderninha. Multidão predisposta a sair berrando tanta asneira que quase nem consigo mais ouvir as pessoas que realmente têm algo importante a dizer.

Uma multidão longe demais da tal conscientização social e próxima demais da intolerância. Quanta contradição nas atitudes! Pois, para defender uma causa, criam uma guerra. E no que essas pessoas ajudam? Nada. Fica muito difícil conversar em meio a tanto barulho. Como se um vizinho começasse o dia tocando uma música que você curte, mas no volume máximo, tão alto que você deseja nunca mais ter que ouvir aquilo. 

Acho inaceitável que em pleno século XXI a intimidade de uma pessoa tenha que ser objeto de discussão pública. Mas, mais inaceitável ainda é o fato de cidadãos ditos instruídos transformarem em circo a difícil conquista de direitos, mais propagando a discórdia do que o entendimento. E de arrasto leva-se à fogueira todo o tipo de assunto, desde religião até a cor da tinta de cabelo que se usa, ou seja, nada mais que um falatório de fim de feira.

Vejo pessoas engajadas medonhamente em causas. Digo medonhamente porque o fazem de maneira cega e torta. São pessoas que não estão interessadas na mudança social, são meros exibicionistas. Não importa qual seja sua luta, faça dentro de uma coerência. Defender, por exemplo, a luta contra a corrupção e, ao mesmo tempo, falar com repugnância de quem está em classe social menos favorecida. Dizer não contra a censura, mas censurar com base em xingamentos a quem tem opinião contrária. Meu amigo, quem disse que democracia era fácil?

Viver em pé de igualdade sendo tão diferentes e, ainda assim, evoluirmos juntos...  só me chamem ser for para valer.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Tem festa!


Se você me perguntar se acredito em amor à primeira vista, eu responderei sim. Se você me perguntar se acredito em único grande amor, acredito. Como também acredito no amor que se constrói dia após dia com o tijolinho da perseverança. E também acredito no amor ciumento, no amor desapegado, no amor sazonal, no amor que nunca chega... Mas, realmente, no que mais acredito é no amor.

É sempre festa quando o Amor chega. O coração se enfeita e acende, brilha. O convidado mais especial é aguardado à porta da alma. Ele virá desta vez? Os olhos atentos aos sinais de que seja mesmo o Amor vindo devagar do outro lado da rua. A casa está em festa e preenche-se de outros convidados que sempre chegam antes do tão querido amigo.

Refrescamo-nos na brisa chamada Amizade, vestida em laços e fitas por sua mãe a Afeição. Dançamos animadamente com a Admiração e logo nos é apresentado um senhor de olhar muito sério e mãos firmes, por alguns, chamado Respeito. É de um moço muito bonito a música que parece vir de toda a parte, seu nome é Carinho. E antes que o convidado principal chegue enfim, você conhece as gêmeas Ansiedade e Expectativa. Duas tias velhas que teimam em te dar conselhos que não deveriam ser usados por ninguém.

Já no auge da festa, sua alma em traje de gala e os sapatos já anunciando o cansaço da espera, você se refugia de todos em uma pequena sala escura. Fugindo dos próprios pensamentos, abre uma pequena fresta na janela, apenas o suficiente para respirar melhor. E, quando já não se ouve mais a algazarra que tantos sentimentos fazem quando estão reunidos, então você relaxa na poltrona mais macia e já não espera.

Mas antes que possa fechar os olhos mais uma vez para adormecer por um longo tempo, antes que possa pedir que parem com a música, antes de apagar todas as luzes, bebe mais um gole na taça da esperança. Quase não percebe a presença de outro alguém ali. Alguém que sabia o melhor momento de te encontrar. O melhor momento para te surpreender. Por que o amor é sábio e somos aprendizes da vida toda diante dele.

O amor sempre chega. Se na sua festa ele não apareceu, talvez apenas tenha convidado o sentimento errado.