quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Das confissões



Então é Natal... E só se fala em promoção, em comprar, em gastar, em dinheiro, para o dinheiro...

Sou do tipo de pessoa que adora as festas de final de ano, o clima de euforia-alegria-expectativa. Gosto de enfeitar a casa, de planejar a ceia. Gosto tanto desses preparativos que talvez devesse me chamar Natalina (ok, menos!). 

Então você caminha pelas ruas e vê o Natal anunciado nas vitrines. “Três por dez!”, berra o ambulante. Você se convence de que a data é só mais uma gritaria sobre o valor monetário de todas as coisas.

As crianças de hoje não sabem o que é o Natal. Apenas contabilizam as possibilidades de presentes que vão ganhar. E jogam-se ao chão entre lágrimas forçadas para persuadir adultos desorientados a lhes dar o que querem. 

As luzes de Natal nem brilham, nem piscam, nem colorem mais, apenas vendem. A tudo se deu um preço. E transformaram-se sensações em números, em códigos de barras. Distanciando-se do campo das crenças, muito além de uma data do calendário cristão, o Natal é um dia para lembrarmos como poderíamos ser melhores o ano todo. 

Inevitável pergunta: por que ainda acredito no Natal?

Tenho uma lembrança tatuada na memória. Foi no Natal de 1986. Eu já estava naquela idade em que o encanto havia sido desfeito e o tal do Papai Noel desacreditado. Então, na noite de véspera, com a casa repleta de pessoas queridas, ele entrou pela porta da frente. Sem anúncio, apenas o “Ho, ho, ho!”. Esqueci até de respirar. Corri para um abraço cheio de alegria. Papai Noel estava ali! De roupa vermelha, barba branca e cheio de presentes. 

Fiquei ao lado dele por um longo tempo. E, mesmo o flagrando puxar a barba para beber em um copo de cerveja, mesmo reconhecendo nele os olhos e nariz do meu tio, mesmo sabendo que o presente havia sido comprado pelos meus pais, mesmo assim eu estava feliz. Apesar de tudo indicar a realidade, foi a magia do instante que sobreviveu. E é essa magia que levo comigo para lembrar que somos sentimentos e não apenas números.

Sim. Meu nome é Lígia, tenho 35 anos e acredito em Papai Noel.

domingo, 17 de novembro de 2013

Fazer ou não fazer?

O que é o domingo? São 24 horas de prazo para sentir saudade dos dias úteis. Uma corrida contra o tempo. É um objetivo, uma meta e um prazo.

O dia amado e odiado na mesma proporção. É quando temos que decidir o que fazer ou não fazer para aproveitar ao máximo. Otimizar o descanso e o lazer, tudo ao mesmo tempo. Ainda, lidar com a ansiedade que antecede a segunda-feira. O domingo é morrer de véspera.


Se acordar meio dia vou perder a manhã. Se acordar muito cedo, perco o descanso. Vou aproveitar para organizar gavetas, visitar amigos, assistir tv, ler um livro, fazer um passeio, dar banho no cachorro, lavar o carro, colocar os estudos em dia, testar uma receita nova na cozinha, cortar a grama, ter uma ideia incrível, bolar um plano infalível e buscar a paz mundial. Cabe tanta coisa em um domingo! E cabe até uma certa tristeza quando ele chega ao final. 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

100% algodão

Meias de algodão. Nenhum lugar é mais seguro e confortável do que minhas meias de algodão. Na impossibilidade de retornar ao útero materno, as meias. Nelas repouso os pés cansados de chão. Os pés cansados de pôr-se em movimento. Refúgio. Contra a frieza que o mundo te trata, meias de algodão. Cada um inventa sua própria maneira de reencontrar-se. A minha é o que me aquece, me acalma e me conforta em silêncio. Eu poderia dizer o mesmo de muitas pessoas que amo, mas a elas não reservo este tempo de céu pesado que paira sobre mim. A elas, prefiro reservar os dias ensolarados. E que não me faltem as meias de algodão.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Outro tijolo na parede

Pensar na educação hoje em dia é entristecer-se. Quem são os pais que estão educando esta geração? Quem são os pais que estão servindo de modelo para a criançada? Quem são os pais e quem são os filhos?
E daquela frase “os incomodados que se retirem” nem é possível aplicar. O mundo é um só e estamos todos nele. Mas a educação é o que nos mantêm no prumo e não faz o barco virar. Infelizmente, parece que a nau vai à pique, vazando água lentamente.

Existem dois sentidos para a educação: aquela que vem do estudo, do conhecimento, e esta que vem do berço. Esta que independe de condição financeira para se justificar, que não leva o selo de garantia acadêmico, mas que diferencia os homens dos apenas primatas.

Quando eu era criança, eu não sabia, mas era educação que recebia da hora de acordar até a hora de dormir. A liberdade era permitida aos poucos, como quando aprendemos a andar de bicicleta. A mão do pai te segurando firme até você aprender a ter o equilíbrio. Só então a mão protetiva vai se afastando lentamente enquanto você avança por si mesmo. Educar é segurar firme para proteger dos tombos enquanto a lição é bem compreendida.

Mas, hoje, o que mais se vê por aí é gente adulta mais infantil do que nunca. Gente que acha que pode escutar música bem alta e que o vizinho não tem que reclamar disso. Gente que aceita provocação no trânsito para provar que é muito bom em ser idiota. Gente que processa o professor por ter repreendido o filho. Gente que deve sim ter tido a boa e velha educação, mas acha que ser educado é ser otário.

Onde foi parar a compreensão e o respeito? Bem provável, na lata do lixo. Eis o “triste fim de Policarpo Quaresma”.

domingo, 15 de setembro de 2013

A Capa do Disco

Quando entrei na adolescência (e já faz tempo!) ir à loja de discos era uma diversão e uma oportunidade de fazer descobertas interessantes. Naquele tempo não existia a internet. Dava para contar nos dedos de uma só mão e sobravam dedos para dizer quantas revistas sobre música existiam nas bancas. Morar em cidade pequena na fronteira pantanosa do Brasil também não ajudava muito a ficar atualizada com o mundo.  O famoso canal de música ainda não havia nascido em terra tupiniquim. O rádio ainda era o melhor meio.

Então, algumas vezes ao ano, meu pai me permitia gastar uns trocados comprando LP’s. Mas, como a grana liberada era mínima e os discos eram muitos nas prateleiras, escolher era um martírio: ou optava pelo certo, ou atirava no duvidoso na esperança de ter tido sorte. Os títulos eram tantos e as capas tão fascinantes! No final, acabava indo pelo óbvio.  E a chance de deixar me surpreender ficava para trás, nos discos que eu preferi não arriscar.

Lembrando-me dessa época, percebi que meu método da escolha segura foi adaptado para outros setores da minha vida. Somente muitos anos mais tarde, decidi fazer apostas. Mas o risco fica maior ao apostar no desconhecido quando você já está longe do ponto de partida. E você tem que ser rápido ao jogar os dados na mesa, ou ficará para sempre os segurando nas mãos e pensando “e se eu tivesse apostado?”.


É claro que não ganhei todas as apostas que fiz. Também fiquei empolgada com alguns ganhos e apostei demais até perder. Fiquei arrogante. Fiquei frustrada. Mas, as vezes que fiz a escolha certa, levando em conta apenas o que eu queria para mim, essas foram as vezes que fizeram tudo valer a pena. O que tento dizer é que, em algum momento da vida, você precisa experimentar comprar um disco pela capa. 

domingo, 1 de setembro de 2013

A saga sanguessuga

Andei observando a onda da vampiromania que tem arrastado multidões aos cinemas. É certo que o vampiro é, de longe, o mais irresistível personagem que a mente humana já produziu baseado na tríade imortalidade, beleza e inteligência. Quem não tem um vampiro como alter ego que jogue a primeira estaca. 

Mas o que surgiu recentemente foi a profanação do mito. Um tal de Edward Cullen e Bella Swan emergiram das páginas da ficção para cair nas graças de uma geração de jovens meramente mortais, comuns e confusos. Ainda, o romance entre os atores que interpretam tais personagens veio alimentando esta desastrada novela de amor e sangue. Tudo culminando em uma frustração generalizada quando o relacionamento dos atores é desnudado, mostrando que, fora das telas, são "gente como a gente". 

No encalço da saga de Edward e Bella, seriados, mais filmes, mais livros e mais produtos destinados a um público insaciável e monotemático. E eu pensando: como serão as relações amorosas deste pessoal? As Bellas da vida real, inseguras e indecisas. Os Edwards, choramingando e fugindo na primeira dificuldade. Um amor pautado no impossível, como se o impossível acontecesse a todo momento em nossas vidas. Como se apenas o impossível fosse digno de se amar e do tempo que temos.

Mas desde que o mundo é mundo e a humanidade anda sob dois pés que a imaginação vive tentando sobrepor-se à realidade. Uma luta entre o que gostaríamos de ser e o que realmente somos. E manter o jogo equilibrado é realmente vencer. 


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O Sonho

De repente você acorda do sonho adocicado que andou chamando de vida. Acorda e acha tudo muito estranho. Leva tempo até que os olhos (de novo olhar) habituem-se a ver o que antes nunca foi percebido. Por quanto tempo eu dormi? Reconheço poucos rostos e até as ruas mudaram as esquinas.

Sim, você acorda em um susto para um mundo novo que ainda é o mesmo velho mundo de sempre. Quero voltar para o sonho macio e fácil. Mas, ainda que eu possa adormecer outra vez, o sonho nunca se repetirá. Nunca mais aquele corpo etéreo. Nunca mais aquela sensação de flutuar.

Deposito sem confiança meus pés no chão áspero. Tento encontrar alguma lembrança boa que me sirva de apoio antes de tentar algum passo. No sonho eu não precisava saber para onde ir. Não precisava conter a vontade. Não precisava de um porquê.

Respiro fundo o ar indiferente, frio. Respiro e avanço. Preencho meus bolsos com as coisas que, dizem, precisarei carregar. Pesa-me. Lembro-me do sonho, agora, cada vez mais sonho. Começa a vida nesta fração de segundo onde todas as coisas acontecem: entre o sopro de Morfeu e a chegada de Aurora.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Um duende chamado Otimismo

Eu não gosto de otimistas. São irritantes em seus sorrisinhos medonhos de alegria plastificada. Detesto suas frases prontas de pára choque de caminhão. Parecem ter caído de um comercial de margarina. Otimistas me causam urticária, dor de cabeça, náuseas e, desconfio, também a labirintite. Eles simplesmente não respeitam o seu direito de ver tudo pelo lado mais trágico, dramático e problemático. Possuem aquela petulância de achar que podem levantar o seu astral sem a sua permissão. Um atrevimento!

É sempre de um otimista a frase "há males que vêm para o bem" ou "depois da tempestade vem a bonança". E não basta proferir a bobagem, ele precisa fazer algo para potencializar o efeito laxativo que é sua presença. Um otimista despreza totalmente a vontade alheia de obedecer a Lei de Murphy. Ele ignora a sua necessidade de autocomiseração e te importuna com uma visão de futuro esperançosa quando tudo o que você mais quer é reclamar do presente e culpar o passado.

Mas, o mais irônico de tudo é que otimistas são como o remédio amargo: pode ser difícil de engolir, mas vai te fazer bem. 

terça-feira, 16 de julho de 2013

Um tapa na CARAS da sociedade

Um click no link e a página em letras berrantes e ortografia suspeita noticiando que “fulana de tal” foi flagrada caminhando na orla de uma famosa praia turística deste país. Suspiro de tristeza, desgosto ou de tédio mesmo. Outro click: o modelo/ator “beltrano” (sim, porque modelo/ator é destas novas profissões por aí para empregar bacharel em reality show), enfim, o rapaz foi visto aos beijos com uma loira desconhecida na balada, fato narrado com obcecada insistência em sugerir uma possível cornitude referente ao ato praticado.

Para provar que sou teimosa, persisto procurando as notícias em meio a tanta bobagem sobre a cor de esmalte mais pedida da novelinha, ou “10 dicas para melhorar o sexo”, ou ainda, as últimas sobre a briga de duas mulheres-bunda. Mas, quase que nas entrelinhas e entre um anúncio da Polishop e outro, encontro algumas matérias realmente interessantes, do tipo que faz mais do que relatar fatos, do tipo que planta a semente do pensar para além do espetáculo fantasioso que tem sido isto a que chamamos de sociedade. Do tipo que ousa levantar a cortina no fundo do palco e ver como as coisas realmente são.


E por falar nisso, não deixe de responder à enquete sobre o tema “você é a favor ou contra a morte do vilão da novela?”. 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Mentira tamanho M


Injúria. Perjúrio. Calúnia. Difamação. Boataria. Fofoca. Disse-que-disse. 
E mentir é sempre um clássico em todas as estações. 
A verdade é uma roupa apertada que causa incômodo, um sapato que te lembra do calo em cada passo do caminho. 
A verdade é “démodé”. Não combina com o brilho barato do seu colar de cretinices. 
A mentira ainda é a “belle de jour”. 
Mas passa o dia, apresenta-se a noite e a verdade é a única que fica. 
Mentir é devaneio de um coração que tem medo do escuro.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Mexa-se!

Os muito inúteis que me perdoem, mas trabalhar é fundamental. Não pelo acúmulo ganancioso. Não pelo vício do processo. Não pela sede de poder. Mas pelo simples fato de ser útil. A quem? A si mesmo. De ter objetivos e seguir por caminhos. Ainda que o seu trabalho não seja rentável, ainda que não seja glamouroso, ou mesmo notável. 

Trabalhar não é ser uma mera peça na engrenagem que mantém o sistema. Fazer seu próprio sustento. Ir muito além da obrigação do talento ou do sucesso aos olhos dos outros. Mas olhar para si e reconhecer a própria capacidade. 

Jamais abandonar o sono latente na cama sem a coragem do guerreiro que precisa sobreviver nesta selva de pedra. Não ser o lacaio da preguiça que delega a tarefa a qualquer outro. Não ser o fraco que se refugia na sombra dos fortes. Não ser a vergonha no espelho, tão pouco a vergonha alheia. Que a brisa jamais seja o prêmio dos moralmente aleijados e oportunistas.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Parei!

Parei de escrever porque a vida chamava lá fora na rua, na lua, nos outros. Parei de escrever porque o dia de sol brilhante ofuscou a linha torta em que eu tentava inserir opiniões retas. Parei de escrever para poder ver além. Parei de escrever para aquecer as mãos segurando uma xícara de café. Parei de escrever para afagar a espécie canina de raça indefinida que me chamava para brincar. Parei de escrever porque o pensamento queria fugir para um lugar onde houvesse lembrança boa. Parei de escrever porque Morfeu veio me visitar. Parei de escrever para sonhar. Hoje, voltei a escrever, timidamente e sem fervor, para não atrapalhar a calmaria que ainda há.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Tempo perdido é tempo não vivido!

Ah, o arrependimento! Palavrinha feia e amargurada. Mora no tempo passado e não aproveitado. Mora no tempo perdido da escolha errada. Mora na intenção que não virou ação. Agora mora no meu pensamento, fazendo fronteira com o desejo que não realizei. E o cálculo é simples: o arrependimento aumenta na mesma proporção do desejo. Faz o querer ser mais urgente. Na urgência, revelo minha intenção, coloco em risco meus planos de conquista. De dominação passo a dominada pela necessidade de ter de volta o momento exato em que não disse, não fiz, não vivi. Arrependimento, teus dias estão contados!


sexta-feira, 24 de maio de 2013

O amor, o motor e a vida


Eu tenho uma grande paixão: carros. Mas não daqueles fanatismos por detalhes e ficha técnica completa de um automóvel. Eu curto carros, sem compromisso de me tornar especialista. Gostaria de realizar todos os meus desejos consumistas neste quesito, mas minha condição financeira me deixa a opção de apenas uma escolha, e uma escolha bem restrita.  

Meu primeiro carro foi um modelito bem popular. De um verdinho-água metálico, com motor singelo, um nanico de boa fé. Com ele fui muito feliz, viajamos por estradas de todos os tipos. Me acompanhava bravamente mesmo quando eu exigi mais do que poderia. Dia ou noite. Chuva ou sol. Companheirão! Com o tempo, comecei a me interessar por outros. Sei lá, queria me aventurar mais e ele reclamando do meu ritmo.

Um dia, passando por uma revenda, troquei olhares com outro carro. Não foi intencional, juro! Apenas aconteceu. Ele era tudo o que eu vinha procurando: forte e bonito. A paixão foi tão intensa que eu até ignorava aquela cor prata e as rodas feias. Comprei-lhe rodas novas, tratei com carinho. Mas as viagens foram ficando escassas, até tornarem-se tão somente planos, sem nunca sobrar tempo para que ele me mostrasse tudo o que tinha para oferecer.

Assim, a relação foi se desgastando na mesmice. Idas e vindas constantes em oficinas. Tornou-se um fardo. Tentei levar adiante. Eu tentei. Há algumas semanas atrás, saímos rodar um pouco. Macio na estrada, obediente nas marchas e esperto nas rotações. Foi perfeita sincronia.

No dia seguinte, ele acordou reclamando. Atravessou a cidade aos solavancos, duro e indiferente. Qualquer relevo da rua era motivo para uma infinidade de barulhos. Talvez a terapia da mecânica pudesse resolver, mas a questão é que era hora de cada um seguir seu caminho.

E como toda relação que chega ao fim, mesmo que seja em um consenso, foi triste. E o deixei na concessionária onde conheci meu carro atual. Que, por sinal, tem aquela mesma cor irritante prata. Agora estou com um 1.8, de câmbio automático e com umas manias meio esnobes, mas confiável e seguro. Não temos aquela relação de aventura, mas estamos nos conhecendo e, aos poucos, talvez eu até aprenda a gostar de ser comandada por um câmbio automático arrogante. Por hora, sentindo saudade de ouvir a rotação e acelerar do jeito que minha alma gosta. 

terça-feira, 21 de maio de 2013

A memória das coisas que não vivi

Existe um gosto na minha boca de um doce que jamais provei. Mas sei que é doce e sei que é suave, feito as histórias ouvidas no colo dos meus saudosos avós.

Uma outra vez lembrei da carta de amor que nunca recebi. Mas sabia de cor as palavras nela escritas. Sabia com o coração de quem tinha saudade.

Lembro, como se tivesse sido ontem, da festa de aniversário de bem antes de nascer. Pois minha alma peregrina, teimosa de vida, não me deixa esquecer.

Certa vez lembre da música que não dancei por ter sapatos apertados demais. E lembrei, também, do vestido novo, cor de alfazema, que nunca tive. Lembrei do orvalho da manhã que não vi chegar enquanto deixava o corpo dormir.

Eu tenho em mim todas as lembranças de todas as vidas que pretendi. Mas, escolhendo viver somente uma, restaram-me apenas os recortes que fiz e colei no mural da minha imaginação. Assim, o que não esqueço, ainda sinto como se eu pudesse realmente ter estado ali. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Das lutas



A luta contra a homofobia é uma causa importante, pois lida com o direito que qualquer indivíduo tem de não ser discriminado e/ou agredido por conta de sua opção sexual. Mas é estranho como o tema perdeu o foco e a função. E cabe aqui ampliar para muitas outras causas que acabam se perdendo nessa babilônia de opinião furada sem atitude alguma.

A impressão que tenho é de que há uma multidão enlouquecida e ansiosa por parecer politicamente correta e moderninha. Multidão predisposta a sair berrando tanta asneira que quase nem consigo mais ouvir as pessoas que realmente têm algo importante a dizer.

Uma multidão longe demais da tal conscientização social e próxima demais da intolerância. Quanta contradição nas atitudes! Pois, para defender uma causa, criam uma guerra. E no que essas pessoas ajudam? Nada. Fica muito difícil conversar em meio a tanto barulho. Como se um vizinho começasse o dia tocando uma música que você curte, mas no volume máximo, tão alto que você deseja nunca mais ter que ouvir aquilo. 

Acho inaceitável que em pleno século XXI a intimidade de uma pessoa tenha que ser objeto de discussão pública. Mas, mais inaceitável ainda é o fato de cidadãos ditos instruídos transformarem em circo a difícil conquista de direitos, mais propagando a discórdia do que o entendimento. E de arrasto leva-se à fogueira todo o tipo de assunto, desde religião até a cor da tinta de cabelo que se usa, ou seja, nada mais que um falatório de fim de feira.

Vejo pessoas engajadas medonhamente em causas. Digo medonhamente porque o fazem de maneira cega e torta. São pessoas que não estão interessadas na mudança social, são meros exibicionistas. Não importa qual seja sua luta, faça dentro de uma coerência. Defender, por exemplo, a luta contra a corrupção e, ao mesmo tempo, falar com repugnância de quem está em classe social menos favorecida. Dizer não contra a censura, mas censurar com base em xingamentos a quem tem opinião contrária. Meu amigo, quem disse que democracia era fácil?

Viver em pé de igualdade sendo tão diferentes e, ainda assim, evoluirmos juntos...  só me chamem ser for para valer.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Tem festa!


Se você me perguntar se acredito em amor à primeira vista, eu responderei sim. Se você me perguntar se acredito em único grande amor, acredito. Como também acredito no amor que se constrói dia após dia com o tijolinho da perseverança. E também acredito no amor ciumento, no amor desapegado, no amor sazonal, no amor que nunca chega... Mas, realmente, no que mais acredito é no amor.

É sempre festa quando o Amor chega. O coração se enfeita e acende, brilha. O convidado mais especial é aguardado à porta da alma. Ele virá desta vez? Os olhos atentos aos sinais de que seja mesmo o Amor vindo devagar do outro lado da rua. A casa está em festa e preenche-se de outros convidados que sempre chegam antes do tão querido amigo.

Refrescamo-nos na brisa chamada Amizade, vestida em laços e fitas por sua mãe a Afeição. Dançamos animadamente com a Admiração e logo nos é apresentado um senhor de olhar muito sério e mãos firmes, por alguns, chamado Respeito. É de um moço muito bonito a música que parece vir de toda a parte, seu nome é Carinho. E antes que o convidado principal chegue enfim, você conhece as gêmeas Ansiedade e Expectativa. Duas tias velhas que teimam em te dar conselhos que não deveriam ser usados por ninguém.

Já no auge da festa, sua alma em traje de gala e os sapatos já anunciando o cansaço da espera, você se refugia de todos em uma pequena sala escura. Fugindo dos próprios pensamentos, abre uma pequena fresta na janela, apenas o suficiente para respirar melhor. E, quando já não se ouve mais a algazarra que tantos sentimentos fazem quando estão reunidos, então você relaxa na poltrona mais macia e já não espera.

Mas antes que possa fechar os olhos mais uma vez para adormecer por um longo tempo, antes que possa pedir que parem com a música, antes de apagar todas as luzes, bebe mais um gole na taça da esperança. Quase não percebe a presença de outro alguém ali. Alguém que sabia o melhor momento de te encontrar. O melhor momento para te surpreender. Por que o amor é sábio e somos aprendizes da vida toda diante dele.

O amor sempre chega. Se na sua festa ele não apareceu, talvez apenas tenha convidado o sentimento errado. 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Verdade, marca registrada.


Ter estudo não significa que você se transformou na pessoa dona da verdade. A quantidade de livros lidos não te torna um sábio. Nem a sua crença, nem as suas estranhas músicas alternativas, nem sua roupa desleixada fingindo ser apenas casual, nem sua atitude anti qualquer coisa que seja povão, nada disso faz de você um ente superior na escala da evolução.

Aliás, existe mais sabedoria em um sertanejo tentando salvar a família da seca impiedosa do que na sua playlist metida à besta nos seus fones de ouvidos chamativos. O sertanejo olha ao céu sem nuvens e o interpreta. Existe mais sabedoria no idoso sentado sozinho em um banco de praça do que no seu rol de amigos avatares daquela rede social. O idoso sabe que a qualidade da vida não depende da quantidade do que conseguimos juntar ao longo dela. Um cão perdido tem mais sabedoria do que o ipad-pod-smart-chatice do qual você não desgruda. O cão compreende a importância de um lar, de afago e um bom amigo. E, sim, há mais sabedoria em uma lista telefônica do que em todos os seus posts pretenciosos anunciando uma revolta que nem você acredita.

Ah, a internet! Esta aldeia global onde tudo está ao alcance de um click. Realmente, basta um click para mudar de assunto quando fica muito pesado, quando alguém derruba um dos seus argumentos, quando sua imagem já não vale mil palavras, quando é preciso encher-se rapidamente de conteúdo para posar de inteligente. Um click de distância entre o mundo real e a fantasia. Quando deixou de ser aldeia global e passou a ser território disputado por várias tribos?

Podemos ser uma sociedade bem mais interessante do que essa. Podemos ser bem maiores, melhores e marcarmos uma era. Sermos célebres na história da humanidade e menos celebridades da TV. Sermos a direção no caminho e menos confusão. Talvez tenhamos perdido o foco no propósito de vivermos em conjunto.

Indignação e manifesto, mas com objetivos. Que sirva como elo e não como um muro que divide. Entre os que estão certos e errados, é só a verdade que sai machucada. 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Grandes Bobões do Universo


Então você passa a conviver com uma pessoa que te causa admiração em grau máximo. Você quer ser assim, se espelha e anota mentalmente cada palavra dela. Pois tudo é sabedoria e tudo é bom. Os dias passam e o convívio ainda é visto como uma dádiva. Dá flagrante em si mesmo agradecendo aos céus por tamanha oportunidade de ser aprendiz de alguém que só você enxerga meio que sendo o Mestre dos Magos.

Leva um tempo para começar a aparecer as primeiras nódoas na magnífica convivência. O que você faz? Saca dos bolsos um punhado de pequenas desculpas para amenizar os sintomas da pré-desilusão. É que a pessoa dormiu mal, acordou mal, está com fome, brigou com alguém em casa, está com problemas no banco, está com dor de dente, com dor de cabeça, em um bad hair day, etc.

De repente, você descobre seu incrível potencial para justificar loucamente aquilo que, para os outros meros mortais, é óbvio: aquela pessoa não é real. Há alguma coisa refletida nela que fica distorcida, confusa e embaçada. Não era a pessoa, era o seu modo de olhar para ela.

E acontece assim, sem hora marcada e nem dia previsto. Sem aviso de perigo. Você simplesmente explode. Detona a dinamite da decepção e joga no ar estilhaços de mágoa. “Como pude me enganar tanto assim?” – repetindo como um mantra. A pessoa não te entende, muito menos você consegue se explicar. A admiração do aprendiz vira frustração. Enquanto o mestre pensa consigo mesmo: Criei um monstro! Passam-se os dias, aumenta-se a distância. Mas, indiferente a toda essa confusão, segue girando a roda da vida. Segue girando o mundo. 

sábado, 2 de março de 2013

Pequenas constatações acerca do nada

Lá se vão as primaveras! Embarco na casa 35 deste ciclo chamado vida. Mas, aproveitando ainda as últimas semanas de 34, me dou ao trabalho de fazer aquela manjada retrospectiva que, blá blá blá à parte, tanto faz se o saldo é positivo, a sensação é sempre a de sair devendo. 

Você vai ali na balança astral e começa a medir o peso dos acontecimentos de sua vida. No meu caso, descobri que não sei dividir em partes razoáveis a quantidade de energia necessária para fazer o lado profissional e o pessoal andarem em conjunto. 

Como não sei desenhar, vou explicar o que acontece. Eu sou um foguete, a vida é a trajetória que preciso percorrer do ponto A (nascimento) até o ponto B (morte). Para tanto, tudo que preciso fazer é acionar os dois motores chamados Profissão e Vida Pessoal. O problema é que, na largada eu me saí muito bem, mas em certa altura do percurso comecei a ter sérios problemas em manter os dois motores acionados com força total ao mesmo tempo. Trocando em miúdos, tenho andado frequentemente em círculos.

Para acionar um motor, preciso desligar o outro. Não era assim, mas com o tempo, fui precisando fazer tantos ajustes na minha trajetória que acabo gastando energia demais de um motor em outro. São frequentes as paradinhas para reabastecer de força e começar tudo de novo. O importante é não esquecer de desligar um e religar o outro, ou então, ficarei apenas flutuando no espaço/tempo deixando apenas que alguma força externa me conduza. 

Conheço foguetes que não vêm com este defeitinho e fazem essa jornada parecer muito simples. Apesar dos meus percalços, das trapalhadas, das frequentes panes e colisão com outras naves, descobri que se não fosse este "defeitinho" não teria vivido, conhecido, absorvido ou somado nada de interessante à minha vida. Tenho certeza que Deus, antes da partida, perguntou "com emoção ou sem emoção?". E todo o mundo já sabe o que respondi. 

O que tenho para me dizer de tudo isso? Enjoy it!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Os dois teimosos

Estou em férias, mas não em estado de férias, ou seja, minha Mente ainda trabalha. Meu Corpo não. Esse anda apegado ao sofá de casa, todo manhoso e sonolento. A Mente, coitada, andava com a agenda cheia de coisas importantes a fazer, coisas para garantir o futuro. Havia muito o que estudar, muito o que assimilar e todas as gavetas da vida para colocar em ordem. Obcecada, chegou a escravizar o Corpo, deixando-o sem dormir, esquecendo de alimentá-lo, nem ao menos levava mais para passear. 

Costumava ser uma dupla de sucesso, chegando sempre juntos e um respeitando as vontades do outro. Mas tem tempo que a relação anda tumultuada. O Corpo já não entende mais o que a Mente anda fazendo. Ele queria ir à praia e pegar um pouco de sol, sentir o sal do mar e ter sensações novas. A Mente acha que não é o momento, é preciso fazer coisas bem mais urgentes. De tal forma que o Corpo obrigou-se a perguntar a ela: afinal, que coisas são essas das quais você sempre fala mas nunca as vejo?

E deu-se a discussão do relacionamento!

Agora estão ambos magoados. Ele se sente colocado em segundo plano. Ela acha injusto que trabalhe pelos dois. Vendo que são obrigados a permanecer juntos, optaram por ignorar um ao outro e cada qual tenta fazer o que bem entende. O Corpo se recusa a sair do sofá e a Mente insiste em torturá-lo com urgências que nem existem. Enquanto isso, em meio ao tempo perdido, levanto a inútil bandeira branca da paz. 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Unidos do Império da Vaidade

Há o orgulho e o amor por si mesmo que surgem quando estamos satisfeitos por quem somos. Vem a vontade natural de que os outros nos vejam assim, triunfantes. Mas são coisas que vêm de dentro. Quando não temos muito o que trazer à tona, somos mais casca do que polpa, sumo e sabor. E, por fora, todos podemos ficar muito parecidos. Afinal, é muita estrelinha para pouca constelação.

Eis que nunca fui santa, tão pouco fervorosa praticante da fé, portanto, sem a presunção da moralidade nas minhas palavras. Apenas observo e anoto. Por vezes, chego a algumas conclusões. A mais recente delas: prazer virou obrigação social. 

No olho do furacão que é o carnaval neste país, onde já reinou absoluto o pecado da luxúria, lidera um dos 7: a vaidade. Não é  a promiscuidade que assusta os mais conservadores, é a desenfreada busca individual pela aparência perfeita. Em uma profusão de peitos, bundas e músculos, onde foi parar a alegria?

Aquela passista de sorriso amplo e pés ligeiros, mas genuína. O compasso da cuíca e o molejo atrevido do folião que passa feliz pela avenida. Não há mais o brilho da festa pagã. Já não há a fantasia. Adeus Arlequim, Pierrot e Colombina. O único trio que interessa é o elétrico! Adeus chuva de confete e purpurina. Já não desfila o carro alegórico, desfilam as barrigas tanquinho e a nudez que já nem espanta. O carnaval ficou tão normal que decepciona.

A dinastia da beleza corporal é rainha de bateria. Onde está o Bloco das Pessoas Reais? Rei Momo emagreceu para não ser deposto. O carnavalesco sangrando criatividade para se superar e aquela "modelo/atriz" foi a única coisa de que falaram. Nem falo dos carnavais de rua, de clubes ou de blocos. Tudo amarrado àquela cerveja ruim monopolizando sua sede no camarote da chatice. Aliás, estamos em tempos que até cachorro de rua é V.I.P. Desse jeito, o bom mesmo é esperar a quarta-feira de cinzas.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Bem mais

Eu... namorando o mar.
Viva o exagero, o excesso e a profusão! Sejamos sinceros em admitir que gostamos de fartura. 

Adoro encher meus olhos de tanto ver beleza. Ficar com bochechas de hamster de tanto comer delícias. Inflar o peito com todo o ar possível quando sinto aquele perfume. Esticar a cara toda naquela gargalhada. Espreguiçar o corpo em todas as direções antes de sair da cama. Ter um coração superlotado de gente amada. Ouvir a música predileta em looping eterno. 

Sim, eu gosto de um exagero bem distribuído pelo meu dia. Daqueles que preenchem as lacunas onde, de vez em quando, amontam-se tristezas. Gosto de ver o horizonte largo, o céu alto e as estradas sem fim. Eu gosto do muito, porque o pouco é para os conformistas. Eu desejo mais, sempre mais. 

Há quem diga que a felicidade é contentar-se com o menos, não ligar para a falta e ignorar o grande espaço vazio que te envolve. E eu acho que é só uma outra forma de ilusão. Se for para trocar seis por meia dúzia, fico com os meus desejos megalomaníacos de ir mais alto, mais longe e mais rápido. 

Não consigo estar à beira do mar sem ter vontade de abraçar o oceano inteiro. Não sei viajar sem ter necessidade de percorrer todos os caminhos. Não sei amar sem sentir por inteiro. Se a vida oferece, eu quero. E o que não vale a pena, não carrego em meus bolsos. 

sábado, 26 de janeiro de 2013

Não quero ser Jane Austen!

http://bit.ly/XI8sj4
Eu gosto de romantismo e, quando me apaixono, alcanço níveis altos no quesito. Mas não consigo admirar os que são românticos, os que são assim em tempo integral e sem férias. É o tipo de pessoa que transforma o simples ato de escovar os dentes em um suplício sentimental fervoroso por que a escova de dentes do ser amado não é mais par da sua, ou porque a escova de dentes do ser amado ainda é par da sua e, só por isso, vai postar o dia inteiro músicas melosas na sua página da rede social.

Até quando você gosta muito de alguém, romantismo tem limite. Funciona mais ou menos como aquela 'gracinha" que a criança faz e percebe que os adultos riram, então, fica ali repetindo e repetindo para aprisionar em si a sensação boa que é a de agradar. 

Acho lindo receber flores, ainda mais quando são as minhas preferidas, flores do campo. Mas acho profundamente irritante receber flores em todas as ocasiões que eram para ser especiais, pelo simples fato de que deixa de ser especial quando fica previsível. A vida não precisa ser uma novela da Jane Austen, acredite, ela pode ser mais fácil!

Eis que os românticos me parecem perigosos. Cometem atitudes inconvenientes por não conseguir segurar a vontade do romantismo. Gastam seus 1000 reais em bônus de torpedo com mensagens para o alvo amado em apenas 1 dia. Ficam distraídos e com frequência são pegos em flagrante pensando na morte da bezerra ao som de Djavan.

Mas estou esquecendo o ser romântico que não tem ninguém com quem gastar sua munição de amor. Então, a pessoa resolve direcionar aos amigos e familiares. Que bonitinho! Pena que fica chato depois do trigésimo post para você exaltando a amizade e finalizando com "eu te amo" em um fundo floral. 

Sou chata? Quase sempre. Mas se você se irritou com isso é provável que esteja se identificando em algum exemplo, então, você consegue causar mais chatice do que eu. 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Sorriso de plástico

Nunca fui conhecida pela minha simpatia. Houve tempo que despendia tempo e esforço (até físico) para esboçar um sorriso capengo, coisa que quase me causava câimbras nos músculos da face. Finalmente, a vida dá voltas o suficiente para te ensinar que sorrir forçado é tão útil quanto tentar enxugar o oceano com papel toalha. Aceitei que um rostinho simpático não me pertencia e deixei de lado essas bobagens.
Eu sei, um sorriso alegra e contagia e blá blá bá... Eu acho isso tudo muito discutível! Não coloco expectativas em alguém pela quantidade de sorrisos que distribuí, mas pela qualidade e intensidade com que sorri.

Meu mau humor é matutino e, às vezes, contínuo. Não consigo emanar entusiasmo pela manhã. Na minha cabeça, manhã e entusiasmo poderiam ser classificados como antônimos. Além do que, acho irritante em grau 937 encontrar pessoas esfuziantes na primeira hora que acordo. Gostaria de andar com uma placa pendurada em meu pescoço: DO NOT DISTURB! Mas não se enganem, eu adoro rir, sorrir, gargalhar, espontaneamente  Só não me sinto obrigada a agradar a quem sequer faz parte da minha vida. Acho pobre de espírito quem se amarra nessas pequenices. Não deixo de me interessar genuinamente por alguém apenas porque ela não tem as mesmas atitudes minhas. E também não me interesso por pessoas que compram livros pela capa.

Entretanto, quando encontro pessoas de bom humor, não recrimino. Embora seja algo que me cause enjoo, respeito que aquela pessoa está em uma frequência astral diferente da minha naquele horário, e só! Não desejo "bom dia" mas o digo, apenas para cumprir a função social dessas duas palavrinhas. Me espanta que tantas pessoas condicionem o seu próprio humor e estima ao fato de ser ou não correspondida por terceiros. São pessoas que já acordam na velocidade 5 do créu e esperam realmente que todos a sua volta acompanhem o ritmo. 

Desculpa, sociedade! Não vim ao mundo para ser mensageira da simpatia. Algumas convenções são apenas cinismo disfarçado de boa educação. Não fosse, eu jamais teria notado a contrariedade que sentem os seres lépidos da manhã ao não obterem de mim um sorriso, nem que seja um de plástico e made in China.

Aos dependentes químicos do afeto fácil, aí vai meu recado: deitem na BR!

sábado, 19 de janeiro de 2013

Só por um dia...

Hoje eu não tinha nada para fazer, então, não fiz. Não tinha nada no que pensar, não pensei. Não tinha saudade para sentir, nem amor para exaltar, nem acontecimento para lamentar... hoje apenas vivi.

Fui dar uma de Narciso e me debrucei sobre o córrego de água só para dizer a mim mesma "gosto de você". Só por um dia, não me cobrei por coisas impossíveis, nem fiz um drama de vida, nem usei o véu da vergonha na cara. Tirei um dia de folga de tudo o que é regra, convenção, imposição ou simples obstrução em meu caminho.

Saí na rua de cara lavada. Alisei meus cabelos com os dedos e vesti o que não combinava na moda mas, sim, comigo. Comi para matar minha fome, bebi para saciar a sede e sentei-me à sombra do tapume sem aquela culpa pela preguiça que me acompanhava.

Hoje, não fiz uma social com amigos e me dei de presente a companhia de família. Tirei de perto a preocupação, a ansiedade e a fadiga do fardo ilusório de carregar o mundo nos ombros. Ouvi músicas antigas e de gosto duvidoso. Evitei o deboche e a intriga. Fiz de conta que tudo era faz-de-conta. 

Agora, neste momento que promovo a ocupação territorial da minha cama pelo meu corpo, extraio da noite aquilo que ela tem de melhor: o saldo de um dia. E percebo, no barulho que fez a latinha da cerveja que abri, a vida é assim, um tanto de amargo e outro tanto de prazer. Basta saber degustar.