terça-feira, 30 de agosto de 2011

Narciso e eu

Floresceu em noite escura neste jardim sem cores.
De tão bela pétala, desfigurava-me.
Bebi do orvalho que ali se abrigava.
Mas era sem vida debaixo de sua sombra.
Em prantos, inundava-me aos poucos.
Querendo transbordar, avancei.
E, no instinto, de Narciso fiz meu alimento.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A costureira

Foi remexendo uma gaveta esquecida que notei as fotos em um álbum desbotado. Passei os olhos carinhosamente em cada uma.
É gostoso rever a fração daqueles momentos. Uma imagem boba e uma longa história.
Sem pensar, surgiu em minha mente uma colcha de retalhos feita das lembranças. Uma a uma unidas pela linha do tempo.
No princípio, eram pedaços desconexos. Mas a memória é caprichosa, feito moça prendada. E os instantes, aprisionados em papel, foram sendo alinhavados.
Ao final, estendi a colcha etérea a minha frente. Despejei nela olhares orgulhosos. Ainda que houvesse imperfeição nos arremates, era mesmo uma bela colcha.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Do sol

Andei perdida por algum tempo.
Guiando-me por estrelas desaparecidas.
De olhos fechados, permaneci.
Deixei lágrimas me banharem.
Era apenas noite, nunca o dia.
Vieram anjos sorrindo.
Ergo o corpo dormente.
É novo o ar que me envolve.
Aspiro sonhos, suspiro.
Amanheço em mim.



terça-feira, 9 de agosto de 2011

Do momento

Estava em mim curtindo pensamentos e vem à porta alguém para interromper.
Incrível como o preguiçoso perde tempo e, pior ainda, rouba o tempo que você tem.
A atitude mais preciosa é a iniciativa. Desocupar o tempo alheio e fazer você mesmo.
Perco o ânimo para responder as perguntas mais banais. Respiro fundo. E a educação de berço me impede.
Não é a paciência que ficou curta. É o outro que satura.
E tudo caminha mesmo assim. Os que carregam e os que são carregados.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Do agosto

Sopra o vento louco que anuncia o novo mês.
A esmo, rodopiam nuvens encorpadas.
Matilha de cães desatinados correndo livres por aí.
O céu vestido de cinza escuro insistindo no choro.
Da janela vejo o tempo em todas as coisas.
Passe o mês do desgosto sem passar por mim.