terça-feira, 30 de outubro de 2012

A gestão do desconhecimento

Quando escolhi ir para o funcionalismo público foi por conta do medo do desemprego. Por muitos anos vivi na rotina de matar um leão por dia e, ainda assim, dormir intranquila sem saber se pela manhã meu emprego ainda estaria esperando por mim. Medo de não pagar o aluguel, de dever ao banco, de sub-sobreviver.

Foi por esta única razão que fiz minha escolha. Estudei com dedicação que nunca tive nos tempos de escola. Enfim, um dia consegui. E lembro que a sensação foi como ganhar na loteria (embora eu nunca tenha ganho nem em rifa). 

Mas a realidade é muito diferente do que o senso comum imagina. Porque eu também era daquelas pessoas que ficava repetindo bobagens das quais nunca tive conhecimento: funcionário público é tudo marajá; trabalham quando querem; não fazem nada; etc. Isso nada mais é do que ser papagaio de pirata, só repetindo sem ter ideia do que se está dizendo. 

Minha chegada nesse universo peculiar foi difícil. Raros são os órgãos preparados para receber gente nova na folha de pagamento. Em empresas privadas, a qualificação e aperfeiçoamento do funcionário é um investimento. A motivação de pessoal é ferramenta indispensável. A ideia de liderança é tão crucial que os administradores modernos não se descuidam e vivem antenados às necessidades externas e, também, internas. Porque tudo é um único processo em que há um objetivo a ser alcançado.

O que ocorreu comigo é quase como uma decepção amorosa. A segurança financeira tornou-se pouco compensadora frente às desvantagens, a meu ver cada vez mais abundantes. Mas, por enquanto, insisto. Trabalhar é preciso.

Ser funcionário público é sair da cama todos os dias para trabalhar sabendo que a motivação está cada vez mais escassa e depende unicamente de você mesmo. É sair de seu lar consciente de que não haverá reconhecimento, pelo contrário, é ouvir de um vagabundo qualquer que ele paga nossos salários. É fazer o que tem de ser feito mesmo sabendo que seremos escalpelados pela ideia geral de que somos fantasmas ou preguiçosos. 

Mas como trabalhadores que somos, comuns, simples, normais, continuamos saindo todos os dias de casa para cumprir com as obrigações, muitas delas feitas com imensa satisfação. Apesar de tudo, aprendemos a manter o respeito e a dedicação à fonte de nosso sustento. E o que nos falta mesmo, é liderança verdadeiramente interessada e competente, que ajude a não se criar joio onde há o trigo.

domingo, 28 de outubro de 2012

Borboletas que não sabem voar


Em meus tenros 12 anos de idade, percebi que o belo é a perfeição e o amor, a possibilidade. Por outro lado, é meu olhar que condena ou eleva. Assim vejo o mundo, através de mim mesma e não do que se apresenta. E é o amor que torna a beleza possível em lugares impossíveis.

De tal sorte, vou conferindo beleza ao que passa por mim. Entendo que a via é de mão dupla. Haverá sempre um conceito alheio à minha espera. Estamos todos sujeitos uns aos outros. Então, acho ingênuo o esforço em estabelecer o padrão do que é belo. Da mesma maneira que acho em vão negar nossa tendência a padronizar tudo para facilitar o entendimento.

Ah! Quanta preguiça! Não somos feito as borboletas que apenas vivem suas etapas, pois não importa a combinação de cores de suas asas se elas não servem para voar. Ou os guepardos que correm velozmente sem pensarem se suas manchas estão bem distribuídas na pelagem. Tampouco abelhas, que são lembradas pela doçura do mel e não por parecerem todas iguais.

Se ando vendo pouca beleza é porque estou com o olhar da alma doente. Se apenas critico a tudo e a todos, sou eu que preciso de uma nova perspectiva. Porque ainda é mais fácil mudar a si mesmo do que ao mundo.

E o que será que Platão pensaria hoje em dia? 

sábado, 20 de outubro de 2012

A maionese

Quanto tempo tem o tempo de que precisamos para curar tudo? Aquele tal tempo a quem aguardamos ansiosamente feito criança esperando a hora do recreio. Um tempo que precisa de tempo para acontecer. Onde mora esse tempo de que falam se apenas o percebo quando já passou por mim?

Pois encontrei o danado escondido em um pote de maionese. Veio até mim na ponta da faca. Tinha eu uma fatia de pão por testemunha. Casual encontro: eu, o tempo e a fome.

Por estar pastoso e escorregadio tive a impressão de que iria me escapar. Tratei logo de morder os nacos que ainda o mantinham preso. Que sabor espetacular!

Tempo. Aquele que desejei que viesse o quanto antes e levasse sem demora minhas aflições. Eu esperava e esperava e esperava. De repente, recebia uma carta dizendo que já havia estado ali e eu nunca notei suas ações.

Mas, hoje, o peguei distraído. Não fiz perguntas. Qualquer resposta que o tempo traga já não serve mais àquela pergunta. Apenas aproveitei o gosto de entender sua mágica. Absorvo-o e confio.