sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Te desejo...


Por mais beijos e abraços e menos esculachos!

Feliz 2013! Simples assim. 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Vida de cacto


Para quem já matou um cacto por falta de água, é compreensível que eu precise de ajuda para cuidar do meu jardim imaginário, a fim de que venham as benditas borboletas. Problemas de gente grande me consomem. Fico distraída de mim. Quando me dou conta, a grama virou mato, as flores murcharam e, das tais borboletas, só a lembrança. 

É quando preciso tirar tempo para cuidar desse terreno fértil, embora negligenciado. Mas, seria melhor se eu percebesse a falta que faço a mim mesma todos os dias, e não apenas quando tudo vira bagunça.

Preciso de menos números e mais cores. Menos papéis e mais boa vontade. Vidinha burocrática que me transforma em máquina. Automatizei sentimentos, péssimo! Uma bela manhã acordo e percebo a dureza e aspereza do que me cerca. Saudade de relva...

 Minha ideia de equilíbrio é viver na corda bamba. Sempre à mercê de arrebentar a corda. Concentro força demais em um só objetivo, esqueço-me de tudo. Como um apostador na mesa de pôquer, arriscando todas as fichas em seu par de Ases. E a sorte é um moleque brincando com vidas.

No fim das contas, o jardim permanece lá, esperando que eu apareça. Fico um tempo ali, plantando carinho entre as flores. Até que tudo esteja tão bucólico que eu precise respirar o ar das máquinas, dos números e dos papéis mais uma vez. E as borboletas vão e vêm, algumas esperam eu voltar, outras esperam que a vida coincida. Não existe regra que explique o que é viver.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Reclamo porque é de graça!



Se reclamar da vida fosse esporte olímpico eu já teria minha medalha de ouro. Reclamo, na maioria das vezes, sem qualquer justificativa. Assim, bem na cara dura. Mas se me perguntarem se gostaria de trocar de vida a resposta é fácil e reta: NÃO. 

Cheguei à conclusão de que reclamar virou um hábito, tão desagradável para o convívio quanto a fumaça de um cigarro. Considero quase um hábito que foi promovido à categoria de vício. Eu gostaria de me libertar disso. Muito embora, como todo vício, sua prática causa-me certo prazer. Nem imagino o que seja reprimir integralmente a lamúria. 

Reclamo de ter que dormir cedo e acordo reclamando do sono. Reclamo do sono que me acompanha até o trabalho. Reclamo da ignorância dos outros no trânsito e nem noto a minha própria. Reclamo do calor, mas reclamo mais ainda do frio. Reclamo da chuva, do sol, etc. Que coisa feia, hein! Parece não existir a medida perfeita para tudo. Mas existe a gratidão. E eu a tenho negligenciado. Pior ainda, tenho culpado a vida pelo simples fato de estar em movimento. 

Se eu for analisar bem, eu gosto da minha vida e de tudo que a compõem. Não há muito que eu mudaria nela. Mas, reclamar é preciso. Ok, reclamar eu preciso. Às vezes parece um tédio constante pairando sobre o dia a dia. Algumas pessoas não sabem lidar com a rejeição, com a frustração, com a desilusão, eu sou do tipo que não sabe lidar com o tédio. Seja por preguiça ou por esquecimento, deixo de empenhar esforço para fazer mudanças. Assim, vou me conformando e seguindo na reclamação. 

Creio que perceber essa farsa em mim já seja é um passo adiante para evoluir. Certamente, não passarei a amar a segunda-feira, mas posso tentar deixa-lá mais leve, diminuir o negativismo diário e ter uma atitude mais empreendedora. Fácil falar, difícil fazer, mas nunca impossível de mudar.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A quem interessar possa




Eu não sou como eu me vejo.
Também não sou como o outro me vê.
Sou os dois e nenhum.
Nunca sei quem serei amanhã.
Talvez seja um mero estranho.
Como saber? Não se sabe.
Eu sei o que estou.
Pensamento e sentimento, nada mais.
Deixo o conceito de lado.
Que meu significado alcance
A quem interessar possa.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O elo perdido

Alguma coisa aconteceu nas últimas duas décadas. A terra tremeu, mas não um tremor perceptível e inconfundível, como a queima imaginária de sutiãs das feministas ou os moicanos coloridos dos punks. A terra moveu-se de modo tão discreto que ninguém sentiu. Embora sem anúncios, algum alicerce ruiu nessa sociedade, fez-se pó em meio a tanta bagunça.

A geração que pariu a década de 90 dançou ao som de sintetizadores a liberdade. Um grande muro foi derrubado. Uma fila de tanques de guerra rendeu-se a um estudante. Governos se desfizeram. E ditaturas findaram. Parece ser o elo perdido entre uma época de luta e o descaso.


Seus filhos cresceram com voz. Geração falante. Livres para expressar, mudar e fazer outra história. Deram novo significado à palavra "comunicação". Uniram-se em redes. Democratizaram a informação, alías, até a democracia lhes foi concedida.

No entanto, o espírito empobreceu. Não vivendo as vitórias pregressas, pouco valor conferem ao que foi realizado. Até acham importante, em caso de serem questionados. Afinal, é cool ter opinião. Mas a memória dessas gerações parece cada vez mais referência apenas à capacidade de armazenamento de dados digitais.

E, onde estão os pais dessas gerações? Engolidos pelo comodismo que há em abrir o jornal e balançar a cabeça como quem diz "o mundo está louco". A quem lutou para ter voz, lamento agora que a herança seja silêncio. Aos que resistem, insistam, que ainda vale a pena.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A gestão do desconhecimento

Quando escolhi ir para o funcionalismo público foi por conta do medo do desemprego. Por muitos anos vivi na rotina de matar um leão por dia e, ainda assim, dormir intranquila sem saber se pela manhã meu emprego ainda estaria esperando por mim. Medo de não pagar o aluguel, de dever ao banco, de sub-sobreviver.

Foi por esta única razão que fiz minha escolha. Estudei com dedicação que nunca tive nos tempos de escola. Enfim, um dia consegui. E lembro que a sensação foi como ganhar na loteria (embora eu nunca tenha ganho nem em rifa). 

Mas a realidade é muito diferente do que o senso comum imagina. Porque eu também era daquelas pessoas que ficava repetindo bobagens das quais nunca tive conhecimento: funcionário público é tudo marajá; trabalham quando querem; não fazem nada; etc. Isso nada mais é do que ser papagaio de pirata, só repetindo sem ter ideia do que se está dizendo. 

Minha chegada nesse universo peculiar foi difícil. Raros são os órgãos preparados para receber gente nova na folha de pagamento. Em empresas privadas, a qualificação e aperfeiçoamento do funcionário é um investimento. A motivação de pessoal é ferramenta indispensável. A ideia de liderança é tão crucial que os administradores modernos não se descuidam e vivem antenados às necessidades externas e, também, internas. Porque tudo é um único processo em que há um objetivo a ser alcançado.

O que ocorreu comigo é quase como uma decepção amorosa. A segurança financeira tornou-se pouco compensadora frente às desvantagens, a meu ver cada vez mais abundantes. Mas, por enquanto, insisto. Trabalhar é preciso.

Ser funcionário público é sair da cama todos os dias para trabalhar sabendo que a motivação está cada vez mais escassa e depende unicamente de você mesmo. É sair de seu lar consciente de que não haverá reconhecimento, pelo contrário, é ouvir de um vagabundo qualquer que ele paga nossos salários. É fazer o que tem de ser feito mesmo sabendo que seremos escalpelados pela ideia geral de que somos fantasmas ou preguiçosos. 

Mas como trabalhadores que somos, comuns, simples, normais, continuamos saindo todos os dias de casa para cumprir com as obrigações, muitas delas feitas com imensa satisfação. Apesar de tudo, aprendemos a manter o respeito e a dedicação à fonte de nosso sustento. E o que nos falta mesmo, é liderança verdadeiramente interessada e competente, que ajude a não se criar joio onde há o trigo.

domingo, 28 de outubro de 2012

Borboletas que não sabem voar


Em meus tenros 12 anos de idade, percebi que o belo é a perfeição e o amor, a possibilidade. Por outro lado, é meu olhar que condena ou eleva. Assim vejo o mundo, através de mim mesma e não do que se apresenta. E é o amor que torna a beleza possível em lugares impossíveis.

De tal sorte, vou conferindo beleza ao que passa por mim. Entendo que a via é de mão dupla. Haverá sempre um conceito alheio à minha espera. Estamos todos sujeitos uns aos outros. Então, acho ingênuo o esforço em estabelecer o padrão do que é belo. Da mesma maneira que acho em vão negar nossa tendência a padronizar tudo para facilitar o entendimento.

Ah! Quanta preguiça! Não somos feito as borboletas que apenas vivem suas etapas, pois não importa a combinação de cores de suas asas se elas não servem para voar. Ou os guepardos que correm velozmente sem pensarem se suas manchas estão bem distribuídas na pelagem. Tampouco abelhas, que são lembradas pela doçura do mel e não por parecerem todas iguais.

Se ando vendo pouca beleza é porque estou com o olhar da alma doente. Se apenas critico a tudo e a todos, sou eu que preciso de uma nova perspectiva. Porque ainda é mais fácil mudar a si mesmo do que ao mundo.

E o que será que Platão pensaria hoje em dia? 

sábado, 20 de outubro de 2012

A maionese

Quanto tempo tem o tempo de que precisamos para curar tudo? Aquele tal tempo a quem aguardamos ansiosamente feito criança esperando a hora do recreio. Um tempo que precisa de tempo para acontecer. Onde mora esse tempo de que falam se apenas o percebo quando já passou por mim?

Pois encontrei o danado escondido em um pote de maionese. Veio até mim na ponta da faca. Tinha eu uma fatia de pão por testemunha. Casual encontro: eu, o tempo e a fome.

Por estar pastoso e escorregadio tive a impressão de que iria me escapar. Tratei logo de morder os nacos que ainda o mantinham preso. Que sabor espetacular!

Tempo. Aquele que desejei que viesse o quanto antes e levasse sem demora minhas aflições. Eu esperava e esperava e esperava. De repente, recebia uma carta dizendo que já havia estado ali e eu nunca notei suas ações.

Mas, hoje, o peguei distraído. Não fiz perguntas. Qualquer resposta que o tempo traga já não serve mais àquela pergunta. Apenas aproveitei o gosto de entender sua mágica. Absorvo-o e confio.


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

La Vendetta


A privacidade morreu. Saudade de quando um número de telefone era usado para comunicar e não para enlouquecer pessoas. Ficou pior com a chegada do celular. Alvo da minha queixa: empresas de telemarketing.

Quem nunca recebeu ligações inconvenientes e persistentes, seja no celular ou no telefone de casa? Para uma empresa de telemarketing, não existe tempo ruim, momento inapropriado ou exagero na insistência. Não adianta ignorar a ligação. Eles vão te ligar o dia inteiro, incansavelmente. É melhor atender logo. Também não adianta explicar que você não quer cartão de crédito, pois já nem consegue pagar os que possui. 



Não importa se é domingo de manhã ou uma sexta-feira na hora do jantar. O telefone vai tocar e é melhor, para seu próprio bem, atender. Já notei que existe um tipo de vingança contra os que se recusam. Certa vez, depois de muita luta, exigi de uma empresa que retirasse meus números desse tipo de cadastro, pois jamais eu havia autorizado nem repassado minhas informações a eles. Fui atendida. Recebi, inclusive, um número do protocolo da minha solicitação. Quase chorei de emoção, pois estava me livrando de um transtorno que vinha há meses ocorrendo. Algumas horas depois (sim, somente algumas horas depois), os telefones celulares de meus familiares começaram a tocar: era a maldita empresa! Deixaram de me ligar e passaram a ligar para quem estava à minha volta. Acho que nem a máfia seria tão vingativa assim!

Eu não ficaria tão chateada e incomodada em atender este pessoal, afinal, essas empresas pagam o salário de pessoas que precisam sustentar suas famílias. Mas eu gostaria de mais respeito. Gostaria de ter minha privacidade de volta sem ter que pagar pelo resgate adquirindo uma porcaria de produto qualquer. Gostaria de não precisar desligar meu próprio telefone quando algumas dessas empresas resolvem me telefonar mais de 20 vezes no mesmo dia. Gostaria que respeitassem horários de descanso e feriados.

Mas enquanto sonho com isso, sigo me esquivando como posso e fazer a única coisa que me resta: comprar de quem não me liga.

sábado, 1 de setembro de 2012

Solidão não é deserto

Agora vamos falar de coisa boa, vamos falar de solidão. Isso mesmo! Que palavrinha temida e desrespeitada! Por muito tempo eu a equiparei à própria morte. Talvez pior que a morte (pois dessa, quem é vivo nada sabe), já que solidão é associada à rejeição, ao fracasso, à tristeza. 

Mudei minha visão a respeito dela. Criei certa afeição pela palavra. Pois tantas vezes vim a estar em estado de solidão mesmo na companhia de tanta gente. E mais outras tantas vezes, a desejei acima de tudo. Como temer a solidão se nos servimos dela a qualquer momento?

Famigerada solidão, é o que pensam os amantes. Mas, mesmo o amor precisa de solidão para não esgotar. Ainda que seja aquele momento só seu para ler um livro, para ouvir aquelas músicas que só você gosta, para andar de pijama e cabelos desgrenhados sem sentir culpa, ou ter um momento para pensar sem interferências externas. 



Solidão comparada ao deserto. Uma longa jornada sem ninguém para conversar, sem o afago, sem o porto seguro nos tempos de aflição. 

Estar sozinho é bom, é produtivo. Também é preciso afastar-se para enxergar o todo, ampliar o horizonte. Prosseguir no isolamento é decisão de cada um. Culpar aos outros por manter-se assim é despreparo de vida.

domingo, 26 de agosto de 2012

Me segue que eu te sigo... e te esqueço!


Não entendo o comportamento humano. Mas passo muita parte do dia tentando entender, embora não seja profissional da área. Quando o assunto é gente, tudo é paradoxo, complexo, absurdo ou efêmero. Agora, joga aí a tal da rede social.

Tudo começa com um nick. E já vem a bizarrice por aí. Tem de tudo: do Batman até o Thyaghinho23. Claro que existem os apelidos simples. Mas a normalidade não é aqui o foco.

Próximo passo é escolher a imagem. O superestimado avatar (porque chamar simplesmente de imagem não é coisa de gente conectada). Tem que ser uma imagem que transmita uma mensagem. Que te mostre como um ser legal, divertido, bonito, inteligente, perspicaz, estiloso, misterioso, seguro, sexy, invencível, indestrutível e inoxidável! Não conseguiu uma imagem sua assim? Vai de foto de alguma celebridade que, só na sua mente, parece muito com você ou com que você gostaria de parecer. Vale personagem de desenho animado, de filmes e vale fingir despretensão.

E agora? Tem um apelido e uma imagem. Mas tem algo a dizer ou mostrar? Novos verbos: postar e tuitar. Chuva de ‘curtir’, ‘compartilhar’ e ‘me segue que eu te sigo’.

E onde está a interação? Para quê tanto esforço em criar uma imagem que não leva a nada e a ninguém? Não soma e não avança. Somos resmungos sociais. Balaio de reclamações uns dos outros. Rasgação de seda quase como troca de favores.

Estou isenta de culpa? Não. Sou parte do grupo dos conectados. Sinto falta da rede. Faço minha autocrítica e não me poupo. Só acho que não faz sentido tanta conexão e, ainda assim, permanecermos isolados.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Alô?


Celular é arma. Qual de nós já não sofreu um atentado à paciência em razão deste objeto maravilhoso? Quem já não foi acordado às 5h de uma bela madrugada? E aquela voz embaçada exalando álcool pela via telefônica só para te dizer que "te considera muiiiiiito". Ou seu foco no discurso de um palestrante interrompido de maneira hedionda por um toque musical numa versão MC Catra.

Ah, amigos! Celular é objeto bélico. De uso indiscriminado nos momentos mais inconvenientes. 
Pior quem devolve o tiro. Pega o maldito e liga para a mamãe (porque mães não podem esperar) enquanto dirige sem notar a buzina do carro vizinho que o alerta da bobagem. Depois xinga a mãe do motorista, a avó do motorista e até a geração que nem veio.

No restaurante, é indigesto. Entre a salada e a sobremesa, falação inútil é o prato principal. Quanta urgência há em falar ao telefone que não possa esperar o tempo da mastigação? Além de fazer alvo os inocentes que apenas estão tentando se alimentar. Fica o mundo sabendo do seu problema com Fulano que não respondeu seu torpedo enviado 1 minuto antes e a suprema ansiedade não permite esperar. 

Na escola é mais importante enviar foto do cabelo desgrenhado do professor do que tentar entender o que todos estão fazendo ali. No ônibus é a própria definição da desgraça. Gente ouvindo chiados em volume máximo sem fones de ouvido. Viagens noturnas com sono assassinado pela luz do objeto agora usado para joguinhos. A tia velha que não para de matraquear fofocas enquanto tudo que você queria era dormir um pouquinho.

E agora temos foto de tudo. Antigamente tínhamos que ter motivos para fotografar. Um amigo distante que reencontramos, uma reunião festiva da família, um nascimento, um casamento, uma conquista na vida, o primeiro carro, etc. Agora nossos motivos são a primeira coisa que os olhos apontam: o cadarço do tênis, um prato de comida, a árvore da rua, a outra árvore da rua, mais uma árvore da rua...

Embora seja vítima dessa arma,  também sou a pessoa que puxa o gatilho. Não vivo sem meu celular. Tenho aprendido a dominar o uso e condicioná-lo ao que realmente é seu verdadeiro objetivo: comunicar.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

No Topo do Mundo

Na infância os voos eram determinados pela altura do pé de goiaba, pela altura do muro da escola, pela altura de pai e mãe no alto de suas sabedorias.

No início da fase adulta os voos ficaram mais altos. E toda a emoção deles dependia da altura do salto do meu sapato, ou daquela bebida que acabara de descobrir me elevando ao ponto mais alto da alegria. E, ainda, na altura do pulo no escuro enquanto caía nos braços de alguém.



Mas, na fase um tanto mais madura, a altura do voo não é mais importante. E você descobre que rasantes suaves te deixam mais elevada, mais serena que nuvens de verão. Você descobre que aquele muro da infância nem era tão alto assim. Que o velho pé de goiaba não é a torre de um castelo.

Agora, aproveito melhor a paisagem até onde a vista alcança. Concedo descanço aos pés que agora acomodam-se em sapatos menos ambiciosos. Penso mais na sombra das árvores. Penso na árvore genealógica, dando mais valor a seus ramos e raiz. 

Meu voo agora é mais sensação do que aventura. O coração encontrou o ritmo. O tempo é um amigo querido te esperando na última estação.

Meu céu nem sempre está no alto. E, em alguns dias, consigo sentir a brisa doce que sopra a quem está no todo de tudo, ainda que o tudo seja apenas eu.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A Metade


O meu copo está meio vazio. Tenho andado pessimista. Meu olhar endurecido e impaciente. Trago na voz o sarcasmo para amenizar o peso das coisas da vida. Meu copo está meio vazio.

Sento-me no bar e já não bebo meu drink preferido. Ouço a música e meu corpo pede inércia. Estou sem ritmo. Parada na estrada da vida, como quem pede carona aceitando qualquer destino.

Cansada de pessoas todos os dias. Acho um fardo esta tal alegria vendida, surrupiada dos bolsos de um bêbado distraído. Não encontro o sorriso genuíno. Sentimentos desonestos trancados nas salas de escritórios. Vejo gente e não vejo ninguém.

Sim, queria transbordar meu copo meio vazio. Ou esvaziá-lo com a sede dos andarilhos. A boca entreaberta, duvidosa quanto ao sabor, não avança. E tudo que faço é permanecer.

Parece um mar de pequenos diamantes, mas são as luzes da cidade ficando mais distante. Afasto-me para ver o todo. Um todo cada vez mais nada. Queria ser parte de alguma parte. Mas flutuo. Livre, meio livre. Sou eu ou é o copo que está meio vazio?

domingo, 12 de agosto de 2012

Pater Noster



Um domingo aos pais. De acordar cedo, apesar da ressaca, para abraçar seu pai-herói. Dia de lembrar com saudade gigante de quem já partiu. Dia de desejar ter conhecido. Dia de aproveitar a presença. Dia de ligar ao pai que mora longe e dizer “eu te amo”. Dia de presentear. E não importa que sejam meias outra vez, importa que seja carinho autêntico.

Talvez o pai não tenha tido tempo para todos os seus chamados. Talvez não tenha tido dinheiro para todos os seus pedidos de aniversário. Talvez tenha andado distraído por conta do trabalho. Talvez ele estivesse apenas tentando ser o melhor pai, da única maneira que soube ser.

Há quem não tenha orgulho dele. Que prefira dar um abraço a um pai postiço. Há quem não admita as semelhanças. Quem renega o sangue. Quem corta o vínculo. Haverá sempre a mágoa de criança que não brincou com seu pai.

Mas, hoje é domingo deles. Do pai e do filho, dos filhos do filho. É um dia de tios, de irmãos, de amigos. E, também, o dia da mãe que incorpora dois papéis. Simplesmente, dia de abençoar a função de ser pai, com todos os significados que possa haver.  

Se você tem a quem dizer “obrigado, meu pai”, que o faço não apenas nesse dia de agosto. Aproveite qualquer momento. Seja uma razão de alegria a quem só quer que você seja feliz. E, se acaso você não pode ter orgulho de seu pai, então, seja você o orgulho dos seus filhos.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

15 minutos


“No futuro, todos terão 15 minutos de fama.” – Andy Warhol

Pois bem, o futuro já é. Está aí jogado na cara do cidadão. E o pop-profeta acertou, somos todos famosos. Alguns com 15 minutos, talvez mais, talvez menos. Celebridades fast food!

Um vídeo para ser viral. Um link para meu sucesso. Meu nick passando de click em click. Não sei cantar, não sei dançar, não sei fazer poesia, não sei contar piadas. Mas tenho mil seguidores, dois mil amigos me adicionaram, fiz estatísticas dos acessos às minhas fotos e virei hastag.

Alguém vai chamar para participar de um programa de TV. Darei entrevistas, darei autógrafos, darei sorrisos, darei a alma. Qualquer coisa que estenda meus 15 minutos.

De repente, fizeram outro viral, mais engraçado, mais alienado, mais vazio ainda. Roubaram minha fama! Caio no esquecimento, tropeço no desespero e volto para mim. Volto para minha vida. A minha velha rotina agora é a minha salvação.

E, parafraseando Vinícius de Moraes, que a fama seja eterna enquanto dure! 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Das transformações


O que você quer ser quando crescer? Isso mesmo! É essa a pergunta que ainda me faço distraidamente. Já se passaram três décadas e eu ainda sonho em ser alguém como Indiana Jones ou uma astronauta, quem sabe até Jedi!

Tem uma criança em mim, insatisfeita com as coisas da vida. Falo da vida de adulto, cheia de regras implícitas e tempo cronometrado para, entre uma coisa e outra, viver.

Aos 10 anos eu tinha pressa em ter 15 para poder ir às festas que via minha prima ir. Aos 15 eu queria ter 18 e ter minha carteira de motorista. Aos 18 eu queria logo ter 25 porque era a idade que eu imaginava que tudo estaria como eu planejei. Passou 25, passou 30 e agora estou com 34 anos e ainda não sou Indiana Jones.

E é em um momento qualquer da rotina que você se pega pensando no queria ser e no que você se transformou. Num dia em que tudo está muito chato e as pessoas à sua volta são simplesmente entediantes. Talvez, no mesmo dia em que você próprio está entediante.

Foi assim que concluí algo importante sobre os sonhos da infância. Eu não me transformei no que esperava. Eu sou uma pessoa como outra qualquer neste mundo tão grande. Mas, aos 34 anos, ainda mantenho a fé na transformação. E, mesmo que seja aos 70 anos, se meus sonhos continuam comigo é porque a vida tem valido a pena.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Enquanto chovia...


Chove...e corro pela rua desviando das poças e das pessoas. Abrigo-me de forma desajeitada debaixo de uma marquise. Na vitrine, meu reflexo. Tento realinhar a rebeldia do cabelo, é inútil. Arrisco mais passos adiante. Por quê o outro lado da rua ficou tão distante? Um pingo de chuva em meu rosto imitando uma lágrima. 

Ninguém repara no céu cinzento em um dia assim. Eu olho atentamente para a calçada, escolhendo onde pisar. Prossigo nos meus afazeres. Mexo na bolsa procurando alguns papéis. Por um segundo, arrependida de levar coisas demais comigo. 

Continuo caminhando. A chuva aperta. Já consigo ver o carro no outro quarteirão. Apresso-me. Penso em mil coisas importantes que tenho para fazer. Tão importantes! Agora, ocupada demais tentando vencer o tempo, não noto aquele rosto escondido debaixo do guarda-chuva. Não noto que alguém esbarrou em mim e pediu desculpas sorrindo. Eu estava em outro lugar que não em mim quando o amor falou comigo.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Fiesta, fiesta!


Em plena segunda-feira já tem amizade ligando para combinar o final de semana. Na quarta-feira, liga, manda torpedo e te chama no MSN (mesmo você estando off line). Na quinta-feira bate a ansiedade na pessoa e ela te pergunta várias vezes o que você decidiu.

Gente! Como é que vou saber se na sexta-feira por volta das 21h eu estarei com aquela vontade absurda de ir pro boteco, balada, o que for? Sou o tipo de pessoa que decide para onde vai conforme a vontade da hora. Não gosto de transformar em compromisso minha própria diversão.

Algumas vezes, até a escolha da roupa muda minha direção. Acordo numa sexta-feira com uma super vontade de usar aquele sapato meio drag queen e pintar a cara como se estivesse indo para a guerra. Nesses momentos, não me venha com esta de “barzinho”. Em outro dia, tenho necessidade suprema de sentar em algum lugar com boa música, pedir meu drink preferido e ouvir meus amigos contando da semana. E, muitas vezes, meu desejo mais profundo é curtir aconchego, lar, emendar um filme no outro e comer brigadeiro na panela.

Então, vou ao sabor do vento, do momento! E espero que os amigos entendam e, ainda assim, continuem fazendo convites para boteco, para balada e quem sabe, até um programa de índio.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A via crucis da amizade


De repente percebo que tenho liberdade e decido usá-la. E assim vou libertando também minhas vontades e desamarrando meu compromisso com quem não interessa. 

Nada mais chato que fazer coisas apenas por educação. Manter amizades que não acrescentam, não multiplicam, não potencializam em nada nossa vida. 

Às vezes, um chute no balde faz um bem danado no astral. Às vezes, chutar muitos baldes por aí pode acabar acertando quem não deveria. 

Mas a saúde agradece livrar-se de quem só está ao teu lado para competir. Aquela pessoa que só te elogia no intuito de receber dois elogios de volta. Que só te ajuda para um dia cobrar com juros. Que aluga teu ouvido com uma história tão repetida quanto Sessão da Tarde. Alguém que enche-se de orgulho em te dizer que conhece um montão de pessoas, mas à noite, só o travesseiro faz companhia.
Enfim, acho um saco! Gente sofredora profissional que faz Jesus Cristo passar vergonha. Alô!!!! Tem uma vida passando bem aqui e agora!

Já não bastasse o banco cobrando a dívida, você ainda tem que aturar cobrança de atenção. Possessividade sobre a amizade. Aquele tipo de pessoa que marca amigos como se marcasse sua boiada, determinando que você não tem o direito de conviver em outros círculos.

Ou seja, fujo de pessoas que trazem na testa a palavra "arrependimento". Das amarguras da vida, bastam as minhas, que eu mesma cultivei. Carrego minha própria cruz, mas procuro esquecer o peso e observar a paisagem. Se não for para me acompanhar assim, que fique longe de mim.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Um minuto para os comerciais!


Aberta a temporada dos senhores de chapéu na mão. Ano de eleição. Salve a democracia! Mas salvem-na, principalmente, desses tais senhores.

Falam em avanço, falam em transparência e falam demais, sem nada a dizer. O circo está preparado e o pão assado na fogueira das vaidades.

Alguns dias nos distraem com a bola rolando, em outros dias, um novo escândalo. Na calada da noite se fazem as leis que aumentam os salários daqueles senhores. E o povo dorme! No dia seguinte, uma pílula de placebo no noticiário da tv.

A culpa é deles! Mas não seriam tais senhores representantes do povo? Também são povo. Ou somos todos assim, ou somos apenas covardes acomodados placidamente no sofá assistindo outro capítulo da novela.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Da Influenza

Tenho me preocupado com opiniões. Uma opinião que é minha, quando externada já não me pertence. Não tenho o domínio, não posso mais a submeter ao confinamento da minha mente. 

É quase como um vírus. Pode virar uma epidemia ou morrer sem ninguém notar. Influenza. Opinião não deveria ser a mãe da discórdia, da confusão. Tão pouco deve existir uma opinião sobre tudo. Reservo-me o direito a não opinar sobre várias coisas, pura e simplesmente porque desconheço. 

Tenho desconfiança nesta tal sabedoria embutida vendida a rodo pelos que opinam sobre tudo. Por vezes, estou do lado de lá, metralhando a mente alheia com o meu modo de pensar. Depois, paro e acho feio. Ressaca da opinião. 

E tantas pessoas agredidas assim! Porque alguém usou mais do que a liberdade de expressão e encontrou parceiros no"achismo". O que um grupo pensa, vira arma. Cabe a mim decidir se serei mais uma pessoa a puxar o gatilho. 

Opinião que não serve para construir, é o que se vê pelas esquinas. Contamina, passa de um para outro sem demora. É água poluída matando mais que apenas a sede. Evito.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Amor em desuso

Foi comprando o último par de sapatos que me veio a questão: transferência de titularidade do sentimento. Ando tão cheia de alguns sentimentos que gostaria de poder transferir a outrem.
Sinto-me sem tempo para todo este sentir em vão. Porque nada é mais inútil que ter um sentimento que não vai para ninguém. Feito aquele sapato que, talvez, vá ficar esquecido na caixa por um longo tempo. Um dia, no meio de um surto de Amélia, farei a faxina que vai decidir o destino do sapato: ainda meu ou de outro alguém.
Assim vejo o que vai em meu coração. Um amontoado de amor sem uso. Então, seria bom poder fazer o inventário do que sinto e transferir a quem lhe dê melhor destino. Preferiria compartilhá-lo no abraço, no beijo, no olhar do meu amado. Mas, o amor que não amo precisa de outro lugar para morar que não seja na caixa de sapatos.

sábado, 12 de maio de 2012

Ausência

De repente você se pega sentindo falta daquela pessoa. Depois de um bom tempo! Um tempo que, dizem por aí, é suficiente para esquecer.
De repente a ausência fica grande. Quase gigante a te devorar!
Eu sinto ausência. Todos os dias e a cada dia mais. Eu não disse o quanto sentia, nem o que me cabia na desculpa. Eu disse o amargo, o que era fardo. Nem era o que realmente ia em mim.
Gostava de falar, de ter assunto, ainda que inútil, mas sempre tinha o que se dizer.
Sinto saudade. Sinto o que achei que fosse fácil sobrepor. Não deveria sentir, dizem por aí. Mas, dizem muitas coisas por aí, e meu coração eu nunca ouvi.
Não tenho voz. Eu tenho saudade. Talvez daquela afinidade, da vontade, da amizade. Eu sinto a falta. Nenhuma correspondência. Não é para mim como tem sido para o outro lado. Por enquanto, apenas ausência.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Todas somos um pouco Dorothy

Eu já fui a garotinha brincando, de pés descalços na rua. Eu já tomei banhos de chuva. Fui travessa, marota... garota.
Um dia encontrei uma certa mulher. Tinha um olhar cortante que desafiava sem nada dizer. Cabeça erguida sustentada por ombros muito decididos. Ela sabia, simplesmente sabia-me. 
Tive medo dela. Às vezes, apenas medo.
E a brincadeira parou. A rua ficou vazia. Então eu pude ver.
No início era sombra, borrão de imagem, confusão talvez.
Mas ela veio até mim. E, no espelho, entendi. Não era ela, era eu ali. 
De repente, fiquei apenas lembrança de mim. Foi-se a menina. Ficou a mulher.


sábado, 17 de março de 2012

As folhas de outono


Eu coleciono estações. Mas minha predileta é o outono. É sempre outono quando minha vida muda de direção. É sempre uma coincidência, mas deixe-me pensar que é por causa da estação.

Minhas lembranças caem ao chão, feito folhas do alto da árvore que amarela. São lembranças amareladas também. Efeito do tempo. Eu sou um pouco árvore, eu acho.

Acontece um outono em mim fora de época. Mas nunca o verão.
Sou de março. Meio Marte. Sou metade.