Chove...e corro pela rua desviando das poças e das pessoas. Abrigo-me
de forma desajeitada debaixo de uma marquise. Na vitrine, meu reflexo. Tento
realinhar a rebeldia do cabelo, é inútil. Arrisco mais passos adiante. Por quê
o outro lado da rua ficou tão distante? Um pingo de chuva em meu rosto imitando
uma lágrima.
Ninguém repara no céu cinzento em um dia assim. Eu olho
atentamente para a calçada, escolhendo onde pisar. Prossigo nos meus afazeres.
Mexo na bolsa procurando alguns papéis. Por um segundo, arrependida de levar
coisas demais comigo.
Continuo caminhando. A chuva aperta. Já consigo ver o carro no
outro quarteirão. Apresso-me. Penso em mil coisas importantes que tenho para
fazer. Tão importantes! Agora, ocupada demais tentando vencer o tempo, não noto
aquele rosto escondido debaixo do guarda-chuva. Não noto que alguém esbarrou em
mim e pediu desculpas sorrindo. Eu estava em outro lugar que não em mim quando
o amor falou comigo.

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