Acho que já estava em mim desde muito cedo. Diria que nasci com essa mania meio cigana de levantar acampamento e ir embora. Desde criança vivi nesse ritmo de mudar de cidade constantemente em razão do trabalho do meu pai.
Nunca rotina. A vida na escola era empolgante. Todo ano tinha uma missão: fazer novos amigos. Aprendi a me adaptar rápido a novos ambientes. Estudei quase sempre em escola pública. Minhas dificuldades eram maiores que dos meus colegas. Um ano em uma escola, no outro ano mudava e tinha que estudar no ritmo de todo mundo que já estava lá há tempos.
Quando saímos do Sul tive um choque cultural e de costumes. Conheci alguns povos indígenas, o que eu chamo de índio de verdade, e não aqueles que eu só conhecia por livros de história e filmes. Vi o que é essa tal desigualdade social de que tanto se fala e pouco se faz para mudar. Entendi como funciona o clima nesse país tão vasto. As aulas de geografia passaram a fazer mais sentido.
Depois que meu pai se aposentou, o velho hábito de mudar permaneceu. Às vezes acordava com uma vontade de morar em outro lugar e levantava acampamento mais uma vez. Mudava de emprego conforme a lua. Mudava o cabelo, o gosto pelas músicas, o prato preferido, enfim, mudava simplesmente.
Foi num dia comum que decidi mudar esse hábito também. Larguei mais um emprego, coloquei tudo na mala e voltei para Ijuí. Depois de tantos anos, queria criar raízes.
Meu plano era simples: arrumaria um emprego, um marido e compraria uma casa.
Arrumei o emprego mais estável possível. Marido? Tive alguns ensaios mas não nunca é o certo. E a casa ainda não comprei. E descobri que tenho evitado isto com muito empenho. Na minha cabeça, se compro uma casa, então me prendo a ela. É aquela veia cigana que fala mais alto e que ainda quer me arrastar mundo afora para testar o desconhecido.
Ainda não encontrei um chão para chamar de meu. Não pertenço a lugar algum. Viver solta assim é minha sina.
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