Você está trabalhando humildemente, ganhando seu quinhão de todo dia para não ter que matar o tal leão. Vem um sujeito e abre a porta da sua sala climatizada (por que você merece algum refresco) e já invade o espaço sem se anunciar.
Sinto uma taquicardia e o estômago gemendo de vontade de botar pra fora o almoço e o sujeito. E ele fala pelos cotovelos e pelas demais articulações. Embora eu tenha paciência guardada na última gaveta, penso mesmo é em 3 tipos diferentes de morte lenta e dolorosa para o indivíduo. Não há como escapar. Abro a gaveta.
A esta altura do colóquio de um lado só, passo a observar a gesticulação espaçosa e o som da voz que parece uma conversa de gralhas. Eu pressinto que, em breve, o sujeito vai solicitar minha opinião seja lá do que for que ele esteja falando. Eu não entendo e não me esforço para entender. Subitamente, fico autista.
Olho para a porta e a vejo ainda aberta. Os 17°C preciosamente conservados agora indo embora. Deus existe?
Sinto-me desgraçada. Presa à boa educação. Então, encerro o episódio devolvendo um sorriso cretino e dizendo “bom final de semana para você também”.
Levanto-me para fechar a porta. Penso nas ostras. E volto para a minha mesa/concha produzir pérolas de papéis.

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