De repente você acorda do sonho
adocicado que andou chamando de vida. Acorda e acha tudo muito estranho. Leva
tempo até que os olhos (de novo olhar) habituem-se a ver o que antes nunca foi
percebido. Por quanto tempo eu dormi? Reconheço poucos rostos e até as ruas
mudaram as esquinas.
Sim, você acorda em um susto para
um mundo novo que ainda é o mesmo velho mundo de sempre. Quero voltar para o
sonho macio e fácil. Mas, ainda que eu possa adormecer outra vez, o sonho nunca
se repetirá. Nunca mais aquele corpo etéreo. Nunca mais aquela sensação de
flutuar.
Deposito sem confiança meus pés
no chão áspero. Tento encontrar alguma lembrança boa que me sirva de apoio
antes de tentar algum passo. No sonho eu não precisava saber para onde ir. Não
precisava conter a vontade. Não precisava de um porquê.
Respiro fundo o ar indiferente,
frio. Respiro e avanço. Preencho meus bolsos com as coisas que, dizem, precisarei carregar. Pesa-me. Lembro-me do sonho, agora, cada vez mais sonho. Começa a vida
nesta fração de segundo onde todas as coisas acontecem: entre o sopro de Morfeu e a chegada de Aurora.

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