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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

A tempestade

Longe, na última linha do meu horizonte, há uma tempestade. Em meu céu de suave azul, repousam nuvens de algodão. Em meu céu repouso meu coração. Aqui, o que está em cima é como o que está embaixo... 
Não me convide para entrar na sua tormenta. Não me chame para o fim da estrada. Preencha-se do seu próprio vazio. 
Longe demais de mim, chove sua própria tristeza. Escoa pelo asfalto um tanto de terra, outro tanto de mágoa. Pois que esse vento transtornado nunca vem do leste. É filho do norte, da noite mais longa, da morte mais lenta. 
Meu céu tem sol nascente. Meu chão tem a rosa. Sou tríade. Sou una. Eu fico. Você, poeira.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O pensamento

O que é o amor se não o momento em que o fôlego se perde no espaço entre mim e você?
O que é o amor se não um cheiro de chuva ao fim de uma tarde de verão?
O que é o amor se não o devaneio do poeta ou o sopro da infância?
O que é o amor se não a foto na estante e a lágrima no rosto?
O que é o amor se não o arrepio na pele ardente?
O que é o amor se não o verbo na primeira pessoa do plural?
O que é o amor se não a incerteza das horas que anunciam a manhã?
O que é o amor se não um amontoado de instantes?
O que é um instante na vida de quem ama?
E a vida de quem ama, não seria apenas um breve instante no oceano do tempo?
E, sendo tudo tão breve, tão momento, não seria o amor apenas esperança?
Pois que seja lapso, que seja eterno, desde que seja amante.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Comemoremos!



Aí você acorda e percebe que chegou mais um ciclo de vida. Lá se foram 37 deles e começando com alegria o 38º. O tempo age rápido e sutil. Você olha no espelho e encontra mais uma ruga, mais um cabelo branco, mais um sinal de que a vida está acontecendo. E eu adoro tudo isso! Nenhuma idade pretérita é melhor do que a de agora. Nenhum momento é melhor que o presente. Nem as doces lembranças do passado e nem as grandes expectativas do futuro. Hoje acordei e me parabenizei pelo simples fato de que é isso que devemos fazer a cada manhã, em cada despertar para mais um dia...
Fazer aniversário é fazer as contas do tempo que gastamos e ter orgulho disso!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Quando li sobre a proibição do sal à mesa


Que estranho momento estamos vivendo! Parece que há a predominância de certos mantras como, “proibir sempre, tolerar jamais” e “só a vitimização salva”. Eita, que esta geração está chata! Parecendo mais criança birrenta que não ganha o presente de Natal que pediu. Resolvendo tudo no grito, batendo os pezinhos no chão para ser o centro das atenções. E eu me pergunto, onde estão os pais desta “criança”?!

Não sei em que época as coisas começaram a desandar, mas sei que este tombo para trás da evolução vai deixar marcas na pele da humanidade. A geração que não sabe resolver seus problemas, pelo contrário, cria outros piores. É igual ao sujeito que faz um empréstimo para quitar outro. A geração que faz o individualismo a regra e a democracia, a exceção. A geração que não consegue lidar com frustrações. Que joga a educação de seus filhos na mão de terceiros. Que acha que tudo é culpa dos políticos. Que não vê problema em dar um “jeitinho”, desde que seja para si. A geração que veio com o argumento da interatividade, mas nada mais que Narcisos. A geração da selfie, dos grupinhos no aplicativo, do check in, da vida perfeita do comercial de margarina. A geração que carrega na maquiagem social para esconder os defeitos. A geração do dedo apontado na cara alheia e do textão para todos os fins.

Só resta constatar que estamos vivendo a geração mais mimimi e porre de todos os tempos! Então você pensa sobre a próxima leva de filhos paridos nestes tempos! Agora façamos 1 minuto de silêncio pelo sal, pelo açúcar, pelo bom senso, proibidos de estarem à mesa.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Quando é que o amor chega?



 Quando é que o amor chega?

Ele chega quando estamos prontos para amar. Sem avisos e nem sinais. É tão simples que chegamos a desconfiar e até fazemos um monte de bobagens por conta disso. Acreditando e desacreditando algumas vezes. Como se saíssemos na rua despistando o amor, entrando em ruas erradas, dobrando em esquinas incertas, só para ter certeza de que é ele mesmo que nos acompanha.

Um dia desses, sem avisos e nem sinais, eu o encontrei. E, quase como todo o mundo, eu tentei despistá-lo de início. Tentei me convencer a duvidar. Mas quando realmente é amor, permanece. O amor fica na vida da gente apesar de haver obstáculos aparentemente intransponíveis. Apesar de haver a má intenção alheia, o olhar desaprovador de quem não tem afeto em si mesmo, apesar das opiniões a respeito, apesar das línguas ferinas e dos venenos... Ainda assim, o amor fica.

Eu o conheci quando estava pronta. Sem traços dos antigos erros. A mente relutou, mas meu coração o reconheceu de primeira. Minha alma o recebeu como quem andou separada de ente tão querido por um lapso muito grande de tempo, talvez eras. Nunca acreditei nas possibilidades de outras vidas, mas como explicar a sensação de familiaridade no teu abraço, no teu cheiro, na tua presença? Será mesmo que já não vivemos isso? Eu que andava sempre tão por mim mesma, já nem sei ver o mundo sem estar de mãos dadas contigo.

O amor me veio quando eu estava de alma limpa para entender o que é amor. Veio por que minha vida precisava de ti para ter mais sentido. Veio para me dar norte. Veio... e, talvez, tenha estado comigo a vida inteira aguardando a hora de nos apresentarmos por inteiro. E agora que nos achamos, quero permanecer contigo por toda a jornada, ser tua luz quando tudo mais for escuro. Quero ser a mão sempre estendida, o conforto, a prece e o riso da tua vida. Quero ser o que você é para mim todos os dias. Eu te amo, simples assim.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Com quem você iria para a guerra

Com quem você iria para a guerra?
Acho interessante a pergunta, pois é muito difícil alcançar a resposta. Em uma situação concreta de ir à guerra, quem eu gostaria que estivesse ao meu lado? Com quem eu arriscaria avançar no campo inimigo, enfrentar o bombardeio ou compartilhar vitória e derrota? A quem confiaria meu armamento, minha coragem, meu medo? Para quem iria confessar a dor, a pequenez do ser e a miséria emocional? De quem poderia esperar que me defendesse do tiro certeiro, da emboscada e do erro? Quem aceitaria cavar trincheiras, passar fome, frio e cansaço sob a incerteza de que tudo vai dar certo?
Afinal, quem é essa pessoa que eu escolheria para dividir a dúvida de vida ou morte?
Talvez essa deva ser a pergunta de todos os dias.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Do vencer e outros mistérios

Acontece todos os dias, com milhares de pessoas pelo mundo. Acontece do outro lado do continente, ou do outro lado da rua. Acontece enquanto passa a telenovela, enquanto alguém ouve música. Acontece para quem está aguardando o ônibus depois de um dia cansativo de trabalho. Acontece para quem saiu para comprar pão. Acontece enquanto houver gente vivendo. 

Mas, afinal, o que foi que me aconteceu? Apenas a vida transcorrendo com um sentimento de vitória. Por que sempre considerei que vencer é estar vivo enquanto o segundo passa pelo ponteiro do relógio. A vitória mora nos detalhes do que fazemos diariamente. 

Eu não descobri a cura para nenhuma doença, não elaborei nenhuma teoria brilhante, nem construí obra memorável para a humanidade. Aliás, meu pequeníssimo passo não faz cócegas nos passos que direcionam a humanidade. Mas hoje fui vitoriosa. Por que, como disse, a vitória mora nos detalhes de um dia vivido sem pressa de ser grande. Vivido na paciência dos passinhos de formiguinha, de erguer um tijolinho após o outro. De saber olhar o céu e esperar a chuva, de esperar a água ensopar a terra, de esperar a semente brotar, de esperar a planta crescer e, finalmente, colher o fruto.

Hoje entendi que vence melhor quem acredita em si e não quem acredita no que se fala por aí. As atitudes grandiosas que me perdoem, mas os gestos mais insignificantes é que dizem do que somos feitos.

Enquanto isso... saboreio meu fruto colhido.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A Luta Continua

Depois de um tempo você não comete mais bobagens. Não dá murro em ponta de faca. Nem insiste no velho erro. Ainda que o erro lhe seja um porto seguro, aquele lugar aconchegante para onde fugimos quando sabemos que fomos um tanto incompetentes na vida. Nada melhor que justificar a teimosia como apenas um dedo podre.

Depois de um tempo você esquece mágoas, rancores, raivas, desgostos... depois de um tempo.
Eu não sei quanto tempo leva para esquecer ou para parar de errar o mesmo erro.


A única coisa que sei é dessa vontade de viver tudo de novo, mesmo que as estatísticas, as profecias, as dicas, os conselhos, as tias digam que nada vai dar certo. Por que no final, tudo dá certo mesmo.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Faça amor. Não faça guerra!


Woodstock já era. A música mudou. O sonho acabou. Os ídolos morreram. A geração X foi decapitada pela Y. A Era de Aquarius virou inferno astral. E ficamos chatos...

A globalização mandou camponeses famintos para fábricas de algum tênis de grife, optando por morrer de cansaço do que de fome. O capitalismo selvagem virou atração de zoológico. Em seu lugar, um predador maior: a informação.

As redes sociais surgiram. Tornaram-se obrigação. Aproximaram pessoas para formar grupos e, assim, melhor separar uns dos outros. O telefone não comunica, apenas exibe seu formato novo. “Por favor”, “com licença” e “obrigado” são palavras vintage. 

Professores apanham. Animais de rua apanham. Mendigos queimam pelas calçadas. Alguém acha que outro alguém está enriquecendo urânio. Troca de mísseis em imagens 3D. 

Deus recebeu ordem de despejo junto com Alá, Buda, Tupã e qualquer integrante do grupo dos que possam fazer algum milagre. O Diabo trocou de sexo e, dizem as más línguas, agora se chama Mídia. A direita e a esquerda coligaram-se e o cidadão continua acreditando em duendes.

A comida é transgênica. O remédio é genérico. A educação é medíocre. A saúde mandou lembranças. Habeas corpus para ladrões e assassinos. O lar agora é uma prisão. O leão comendo salários. Os aposentados procurando emprego outra vez. Crianças dançando funk até o chão, ão, ão. O craque já não joga bola, só acende o cachimbo. Os idosos sentem saudade. E os adultos... bem, alguém viu algum adulto por aí?

Enquanto isso, lá em casa, continuamos economizando na conta de luz, da água e separando o lixo, porque isso deixa o mundo melhor, disse o moço da tv.

Por Lígia Cargnelutti
Texto originalmente publicado no blog Bordel Bordado e republicado no Portal Discorra

domingo, 15 de setembro de 2013

A Capa do Disco

Quando entrei na adolescência (e já faz tempo!) ir à loja de discos era uma diversão e uma oportunidade de fazer descobertas interessantes. Naquele tempo não existia a internet. Dava para contar nos dedos de uma só mão e sobravam dedos para dizer quantas revistas sobre música existiam nas bancas. Morar em cidade pequena na fronteira pantanosa do Brasil também não ajudava muito a ficar atualizada com o mundo.  O famoso canal de música ainda não havia nascido em terra tupiniquim. O rádio ainda era o melhor meio.

Então, algumas vezes ao ano, meu pai me permitia gastar uns trocados comprando LP’s. Mas, como a grana liberada era mínima e os discos eram muitos nas prateleiras, escolher era um martírio: ou optava pelo certo, ou atirava no duvidoso na esperança de ter tido sorte. Os títulos eram tantos e as capas tão fascinantes! No final, acabava indo pelo óbvio.  E a chance de deixar me surpreender ficava para trás, nos discos que eu preferi não arriscar.

Lembrando-me dessa época, percebi que meu método da escolha segura foi adaptado para outros setores da minha vida. Somente muitos anos mais tarde, decidi fazer apostas. Mas o risco fica maior ao apostar no desconhecido quando você já está longe do ponto de partida. E você tem que ser rápido ao jogar os dados na mesa, ou ficará para sempre os segurando nas mãos e pensando “e se eu tivesse apostado?”.


É claro que não ganhei todas as apostas que fiz. Também fiquei empolgada com alguns ganhos e apostei demais até perder. Fiquei arrogante. Fiquei frustrada. Mas, as vezes que fiz a escolha certa, levando em conta apenas o que eu queria para mim, essas foram as vezes que fizeram tudo valer a pena. O que tento dizer é que, em algum momento da vida, você precisa experimentar comprar um disco pela capa. 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O Sonho

De repente você acorda do sonho adocicado que andou chamando de vida. Acorda e acha tudo muito estranho. Leva tempo até que os olhos (de novo olhar) habituem-se a ver o que antes nunca foi percebido. Por quanto tempo eu dormi? Reconheço poucos rostos e até as ruas mudaram as esquinas.

Sim, você acorda em um susto para um mundo novo que ainda é o mesmo velho mundo de sempre. Quero voltar para o sonho macio e fácil. Mas, ainda que eu possa adormecer outra vez, o sonho nunca se repetirá. Nunca mais aquele corpo etéreo. Nunca mais aquela sensação de flutuar.

Deposito sem confiança meus pés no chão áspero. Tento encontrar alguma lembrança boa que me sirva de apoio antes de tentar algum passo. No sonho eu não precisava saber para onde ir. Não precisava conter a vontade. Não precisava de um porquê.

Respiro fundo o ar indiferente, frio. Respiro e avanço. Preencho meus bolsos com as coisas que, dizem, precisarei carregar. Pesa-me. Lembro-me do sonho, agora, cada vez mais sonho. Começa a vida nesta fração de segundo onde todas as coisas acontecem: entre o sopro de Morfeu e a chegada de Aurora.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Mexa-se!

Os muito inúteis que me perdoem, mas trabalhar é fundamental. Não pelo acúmulo ganancioso. Não pelo vício do processo. Não pela sede de poder. Mas pelo simples fato de ser útil. A quem? A si mesmo. De ter objetivos e seguir por caminhos. Ainda que o seu trabalho não seja rentável, ainda que não seja glamouroso, ou mesmo notável. 

Trabalhar não é ser uma mera peça na engrenagem que mantém o sistema. Fazer seu próprio sustento. Ir muito além da obrigação do talento ou do sucesso aos olhos dos outros. Mas olhar para si e reconhecer a própria capacidade. 

Jamais abandonar o sono latente na cama sem a coragem do guerreiro que precisa sobreviver nesta selva de pedra. Não ser o lacaio da preguiça que delega a tarefa a qualquer outro. Não ser o fraco que se refugia na sombra dos fortes. Não ser a vergonha no espelho, tão pouco a vergonha alheia. Que a brisa jamais seja o prêmio dos moralmente aleijados e oportunistas.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

O amor, o motor e a vida


Eu tenho uma grande paixão: carros. Mas não daqueles fanatismos por detalhes e ficha técnica completa de um automóvel. Eu curto carros, sem compromisso de me tornar especialista. Gostaria de realizar todos os meus desejos consumistas neste quesito, mas minha condição financeira me deixa a opção de apenas uma escolha, e uma escolha bem restrita.  

Meu primeiro carro foi um modelito bem popular. De um verdinho-água metálico, com motor singelo, um nanico de boa fé. Com ele fui muito feliz, viajamos por estradas de todos os tipos. Me acompanhava bravamente mesmo quando eu exigi mais do que poderia. Dia ou noite. Chuva ou sol. Companheirão! Com o tempo, comecei a me interessar por outros. Sei lá, queria me aventurar mais e ele reclamando do meu ritmo.

Um dia, passando por uma revenda, troquei olhares com outro carro. Não foi intencional, juro! Apenas aconteceu. Ele era tudo o que eu vinha procurando: forte e bonito. A paixão foi tão intensa que eu até ignorava aquela cor prata e as rodas feias. Comprei-lhe rodas novas, tratei com carinho. Mas as viagens foram ficando escassas, até tornarem-se tão somente planos, sem nunca sobrar tempo para que ele me mostrasse tudo o que tinha para oferecer.

Assim, a relação foi se desgastando na mesmice. Idas e vindas constantes em oficinas. Tornou-se um fardo. Tentei levar adiante. Eu tentei. Há algumas semanas atrás, saímos rodar um pouco. Macio na estrada, obediente nas marchas e esperto nas rotações. Foi perfeita sincronia.

No dia seguinte, ele acordou reclamando. Atravessou a cidade aos solavancos, duro e indiferente. Qualquer relevo da rua era motivo para uma infinidade de barulhos. Talvez a terapia da mecânica pudesse resolver, mas a questão é que era hora de cada um seguir seu caminho.

E como toda relação que chega ao fim, mesmo que seja em um consenso, foi triste. E o deixei na concessionária onde conheci meu carro atual. Que, por sinal, tem aquela mesma cor irritante prata. Agora estou com um 1.8, de câmbio automático e com umas manias meio esnobes, mas confiável e seguro. Não temos aquela relação de aventura, mas estamos nos conhecendo e, aos poucos, talvez eu até aprenda a gostar de ser comandada por um câmbio automático arrogante. Por hora, sentindo saudade de ouvir a rotação e acelerar do jeito que minha alma gosta. 

terça-feira, 21 de maio de 2013

A memória das coisas que não vivi

Existe um gosto na minha boca de um doce que jamais provei. Mas sei que é doce e sei que é suave, feito as histórias ouvidas no colo dos meus saudosos avós.

Uma outra vez lembrei da carta de amor que nunca recebi. Mas sabia de cor as palavras nela escritas. Sabia com o coração de quem tinha saudade.

Lembro, como se tivesse sido ontem, da festa de aniversário de bem antes de nascer. Pois minha alma peregrina, teimosa de vida, não me deixa esquecer.

Certa vez lembre da música que não dancei por ter sapatos apertados demais. E lembrei, também, do vestido novo, cor de alfazema, que nunca tive. Lembrei do orvalho da manhã que não vi chegar enquanto deixava o corpo dormir.

Eu tenho em mim todas as lembranças de todas as vidas que pretendi. Mas, escolhendo viver somente uma, restaram-me apenas os recortes que fiz e colei no mural da minha imaginação. Assim, o que não esqueço, ainda sinto como se eu pudesse realmente ter estado ali. 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Tem festa!


Se você me perguntar se acredito em amor à primeira vista, eu responderei sim. Se você me perguntar se acredito em único grande amor, acredito. Como também acredito no amor que se constrói dia após dia com o tijolinho da perseverança. E também acredito no amor ciumento, no amor desapegado, no amor sazonal, no amor que nunca chega... Mas, realmente, no que mais acredito é no amor.

É sempre festa quando o Amor chega. O coração se enfeita e acende, brilha. O convidado mais especial é aguardado à porta da alma. Ele virá desta vez? Os olhos atentos aos sinais de que seja mesmo o Amor vindo devagar do outro lado da rua. A casa está em festa e preenche-se de outros convidados que sempre chegam antes do tão querido amigo.

Refrescamo-nos na brisa chamada Amizade, vestida em laços e fitas por sua mãe a Afeição. Dançamos animadamente com a Admiração e logo nos é apresentado um senhor de olhar muito sério e mãos firmes, por alguns, chamado Respeito. É de um moço muito bonito a música que parece vir de toda a parte, seu nome é Carinho. E antes que o convidado principal chegue enfim, você conhece as gêmeas Ansiedade e Expectativa. Duas tias velhas que teimam em te dar conselhos que não deveriam ser usados por ninguém.

Já no auge da festa, sua alma em traje de gala e os sapatos já anunciando o cansaço da espera, você se refugia de todos em uma pequena sala escura. Fugindo dos próprios pensamentos, abre uma pequena fresta na janela, apenas o suficiente para respirar melhor. E, quando já não se ouve mais a algazarra que tantos sentimentos fazem quando estão reunidos, então você relaxa na poltrona mais macia e já não espera.

Mas antes que possa fechar os olhos mais uma vez para adormecer por um longo tempo, antes que possa pedir que parem com a música, antes de apagar todas as luzes, bebe mais um gole na taça da esperança. Quase não percebe a presença de outro alguém ali. Alguém que sabia o melhor momento de te encontrar. O melhor momento para te surpreender. Por que o amor é sábio e somos aprendizes da vida toda diante dele.

O amor sempre chega. Se na sua festa ele não apareceu, talvez apenas tenha convidado o sentimento errado. 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Grandes Bobões do Universo


Então você passa a conviver com uma pessoa que te causa admiração em grau máximo. Você quer ser assim, se espelha e anota mentalmente cada palavra dela. Pois tudo é sabedoria e tudo é bom. Os dias passam e o convívio ainda é visto como uma dádiva. Dá flagrante em si mesmo agradecendo aos céus por tamanha oportunidade de ser aprendiz de alguém que só você enxerga meio que sendo o Mestre dos Magos.

Leva um tempo para começar a aparecer as primeiras nódoas na magnífica convivência. O que você faz? Saca dos bolsos um punhado de pequenas desculpas para amenizar os sintomas da pré-desilusão. É que a pessoa dormiu mal, acordou mal, está com fome, brigou com alguém em casa, está com problemas no banco, está com dor de dente, com dor de cabeça, em um bad hair day, etc.

De repente, você descobre seu incrível potencial para justificar loucamente aquilo que, para os outros meros mortais, é óbvio: aquela pessoa não é real. Há alguma coisa refletida nela que fica distorcida, confusa e embaçada. Não era a pessoa, era o seu modo de olhar para ela.

E acontece assim, sem hora marcada e nem dia previsto. Sem aviso de perigo. Você simplesmente explode. Detona a dinamite da decepção e joga no ar estilhaços de mágoa. “Como pude me enganar tanto assim?” – repetindo como um mantra. A pessoa não te entende, muito menos você consegue se explicar. A admiração do aprendiz vira frustração. Enquanto o mestre pensa consigo mesmo: Criei um monstro! Passam-se os dias, aumenta-se a distância. Mas, indiferente a toda essa confusão, segue girando a roda da vida. Segue girando o mundo. 

sábado, 2 de março de 2013

Pequenas constatações acerca do nada

Lá se vão as primaveras! Embarco na casa 35 deste ciclo chamado vida. Mas, aproveitando ainda as últimas semanas de 34, me dou ao trabalho de fazer aquela manjada retrospectiva que, blá blá blá à parte, tanto faz se o saldo é positivo, a sensação é sempre a de sair devendo. 

Você vai ali na balança astral e começa a medir o peso dos acontecimentos de sua vida. No meu caso, descobri que não sei dividir em partes razoáveis a quantidade de energia necessária para fazer o lado profissional e o pessoal andarem em conjunto. 

Como não sei desenhar, vou explicar o que acontece. Eu sou um foguete, a vida é a trajetória que preciso percorrer do ponto A (nascimento) até o ponto B (morte). Para tanto, tudo que preciso fazer é acionar os dois motores chamados Profissão e Vida Pessoal. O problema é que, na largada eu me saí muito bem, mas em certa altura do percurso comecei a ter sérios problemas em manter os dois motores acionados com força total ao mesmo tempo. Trocando em miúdos, tenho andado frequentemente em círculos.

Para acionar um motor, preciso desligar o outro. Não era assim, mas com o tempo, fui precisando fazer tantos ajustes na minha trajetória que acabo gastando energia demais de um motor em outro. São frequentes as paradinhas para reabastecer de força e começar tudo de novo. O importante é não esquecer de desligar um e religar o outro, ou então, ficarei apenas flutuando no espaço/tempo deixando apenas que alguma força externa me conduza. 

Conheço foguetes que não vêm com este defeitinho e fazem essa jornada parecer muito simples. Apesar dos meus percalços, das trapalhadas, das frequentes panes e colisão com outras naves, descobri que se não fosse este "defeitinho" não teria vivido, conhecido, absorvido ou somado nada de interessante à minha vida. Tenho certeza que Deus, antes da partida, perguntou "com emoção ou sem emoção?". E todo o mundo já sabe o que respondi. 

O que tenho para me dizer de tudo isso? Enjoy it!

sábado, 19 de janeiro de 2013

Só por um dia...

Hoje eu não tinha nada para fazer, então, não fiz. Não tinha nada no que pensar, não pensei. Não tinha saudade para sentir, nem amor para exaltar, nem acontecimento para lamentar... hoje apenas vivi.

Fui dar uma de Narciso e me debrucei sobre o córrego de água só para dizer a mim mesma "gosto de você". Só por um dia, não me cobrei por coisas impossíveis, nem fiz um drama de vida, nem usei o véu da vergonha na cara. Tirei um dia de folga de tudo o que é regra, convenção, imposição ou simples obstrução em meu caminho.

Saí na rua de cara lavada. Alisei meus cabelos com os dedos e vesti o que não combinava na moda mas, sim, comigo. Comi para matar minha fome, bebi para saciar a sede e sentei-me à sombra do tapume sem aquela culpa pela preguiça que me acompanhava.

Hoje, não fiz uma social com amigos e me dei de presente a companhia de família. Tirei de perto a preocupação, a ansiedade e a fadiga do fardo ilusório de carregar o mundo nos ombros. Ouvi músicas antigas e de gosto duvidoso. Evitei o deboche e a intriga. Fiz de conta que tudo era faz-de-conta. 

Agora, neste momento que promovo a ocupação territorial da minha cama pelo meu corpo, extraio da noite aquilo que ela tem de melhor: o saldo de um dia. E percebo, no barulho que fez a latinha da cerveja que abri, a vida é assim, um tanto de amargo e outro tanto de prazer. Basta saber degustar.

sábado, 1 de setembro de 2012

Solidão não é deserto

Agora vamos falar de coisa boa, vamos falar de solidão. Isso mesmo! Que palavrinha temida e desrespeitada! Por muito tempo eu a equiparei à própria morte. Talvez pior que a morte (pois dessa, quem é vivo nada sabe), já que solidão é associada à rejeição, ao fracasso, à tristeza. 

Mudei minha visão a respeito dela. Criei certa afeição pela palavra. Pois tantas vezes vim a estar em estado de solidão mesmo na companhia de tanta gente. E mais outras tantas vezes, a desejei acima de tudo. Como temer a solidão se nos servimos dela a qualquer momento?

Famigerada solidão, é o que pensam os amantes. Mas, mesmo o amor precisa de solidão para não esgotar. Ainda que seja aquele momento só seu para ler um livro, para ouvir aquelas músicas que só você gosta, para andar de pijama e cabelos desgrenhados sem sentir culpa, ou ter um momento para pensar sem interferências externas. 



Solidão comparada ao deserto. Uma longa jornada sem ninguém para conversar, sem o afago, sem o porto seguro nos tempos de aflição. 

Estar sozinho é bom, é produtivo. Também é preciso afastar-se para enxergar o todo, ampliar o horizonte. Prosseguir no isolamento é decisão de cada um. Culpar aos outros por manter-se assim é despreparo de vida.