quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Do pecado

Há música lá fora, barulho em algum beco sujo. O quarto é quente e a cama é fria.
A noite reclama o proibido e ela sussurra um nome como quem reza.
O corpo ganancioso deseja. Transpira o tempo pelo relógio.
No corredor, passos impacientes. Ele vem.
A boca está faminta daquele hálito. Braços nervosos se prendem.
Dançarinos furiosos sem encontram. Estrelas se jogam do céu.
Enquanto o pecado se eleva, o carnal vai ficando mais divino.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Senha: 8.938

Nádegas quadradas na cadeira desconfortável, esperando o número maldito aparecer na tela. Banco. A instituição do inferno.
O sujeito tinha tanto gel no cabelo que chegava a pender a cabeça. Serviço fácil e rápido, pensei. Nada é tão simples quando o Capeta usa crachá e fala ao telefone.
Fui buscar meu novo cartão. Aquele pedaço de plástico que faz mais estrago que navalha.
"Desculpe, moça. Mas não estamos encontrando seu cartão. Alguma falha no nosso sistema". Hein? "Estaremos entrando em contato esta semana assim que o encontrarmos."
Saí do prédio e absorvi o calor da rua. Dois passos na calçada e uma certeza: o inferno é burocrático.

sábado, 10 de setembro de 2011

Da água

Foi quase um soco no rosto quando abri a janela. Acostumada à penumbra do quarto, fiquei zonza.
Deixei o ar de fora me contar as novidades. Observei a cortina esvoaçando, a imaginei tentando dançar de feliz.
Algumas nuvens passeadeiras no céu despedindo-se, indo chover em algum outro lugar. Voltaram as cores de aquarela na paisagem. Prenúncio de primavera.
Abri meu coração e coloquei ao sol para aquecer. Joguei a alma debaixo das águas que o tempo jorrou. Dei a mim o direito à lavação para tirar as nódoas de ressentimentos.
E tudo ficou tão alvo e com cheiro de vida nova. De alma lavada, me enfeitei mais uma vez à espera de um presente. Venha o destino até mim que hoje vamos dançar!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Sobre viver...

Você só precisa de vontade para ter bagagem. A vida é locomotiva sem condutor, trilhando desejos alheios.
Nem sempre estará acompanhado, nem sempre estará só. Mas qualquer percurso vale a paisagem.

Faça as pazes com velhos inimigos. Nenhum mal há que perdure o tempo que corre nas veias. Temos todos algum defeito e, aos domingos, muitas virtudes.

Você é feito dos seus pensamentos. Não seja a palavra que se joga ao vento, toma rumo e cai em outro país.
Plante mais amigos do que amores que a vida há de lhe dar o fruto mais saboroso.

Eu sou fiel ao que sinto, mas na maior parte do tempo, sou instinto. Somos... de brisa à parede, vamos construindo.

Leve. Deixe. Solte. O que não cabe no coração não vale a pena.