quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O elo perdido

Alguma coisa aconteceu nas últimas duas décadas. A terra tremeu, mas não um tremor perceptível e inconfundível, como a queima imaginária de sutiãs das feministas ou os moicanos coloridos dos punks. A terra moveu-se de modo tão discreto que ninguém sentiu. Embora sem anúncios, algum alicerce ruiu nessa sociedade, fez-se pó em meio a tanta bagunça.

A geração que pariu a década de 90 dançou ao som de sintetizadores a liberdade. Um grande muro foi derrubado. Uma fila de tanques de guerra rendeu-se a um estudante. Governos se desfizeram. E ditaturas findaram. Parece ser o elo perdido entre uma época de luta e o descaso.


Seus filhos cresceram com voz. Geração falante. Livres para expressar, mudar e fazer outra história. Deram novo significado à palavra "comunicação". Uniram-se em redes. Democratizaram a informação, alías, até a democracia lhes foi concedida.

No entanto, o espírito empobreceu. Não vivendo as vitórias pregressas, pouco valor conferem ao que foi realizado. Até acham importante, em caso de serem questionados. Afinal, é cool ter opinião. Mas a memória dessas gerações parece cada vez mais referência apenas à capacidade de armazenamento de dados digitais.

E, onde estão os pais dessas gerações? Engolidos pelo comodismo que há em abrir o jornal e balançar a cabeça como quem diz "o mundo está louco". A quem lutou para ter voz, lamento agora que a herança seja silêncio. Aos que resistem, insistam, que ainda vale a pena.

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