Então você passa a conviver com
uma pessoa que te causa admiração em grau máximo. Você quer ser assim, se
espelha e anota mentalmente cada palavra dela. Pois tudo é sabedoria e tudo é
bom. Os dias passam e o convívio ainda é visto como uma dádiva. Dá flagrante em
si mesmo agradecendo aos céus por tamanha oportunidade de ser aprendiz de
alguém que só você enxerga meio que sendo o Mestre dos Magos.
Leva um tempo para começar a
aparecer as primeiras nódoas na magnífica convivência. O que você faz? Saca dos
bolsos um punhado de pequenas desculpas para amenizar os sintomas da
pré-desilusão. É que a pessoa dormiu mal, acordou mal, está com fome, brigou
com alguém em casa, está com problemas no banco, está com dor de dente, com dor
de cabeça, em um bad hair day, etc.
De repente, você descobre seu
incrível potencial para justificar loucamente aquilo que, para os outros meros
mortais, é óbvio: aquela pessoa não é real. Há alguma coisa refletida nela que
fica distorcida, confusa e embaçada. Não era a pessoa, era o seu modo de olhar
para ela.
E acontece assim, sem hora
marcada e nem dia previsto. Sem aviso de perigo. Você simplesmente explode. Detona
a dinamite da decepção e joga no ar estilhaços de mágoa. “Como pude me enganar
tanto assim?” – repetindo como um mantra. A pessoa não te entende, muito menos
você consegue se explicar. A admiração do aprendiz vira frustração. Enquanto o
mestre pensa consigo mesmo: Criei um monstro! Passam-se os dias, aumenta-se a
distância. Mas, indiferente a toda essa confusão, segue girando a roda da vida.
Segue girando o mundo.

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