Na infância os voos eram determinados pela altura do pé de goiaba, pela altura do muro da escola, pela altura de pai e mãe no alto de suas sabedorias.
No início da fase adulta os voos ficaram mais altos. E toda a emoção deles dependia da altura do salto do meu sapato, ou daquela bebida que acabara de descobrir me elevando ao ponto mais alto da alegria. E, ainda, na altura do pulo no escuro enquanto caía nos braços de alguém.
Mas, na fase um tanto mais madura, a altura do voo não é mais importante. E você descobre que rasantes suaves te deixam mais elevada, mais serena que nuvens de verão. Você descobre que aquele muro da infância nem era tão alto assim. Que o velho pé de goiaba não é a torre de um castelo.
Agora, aproveito melhor a paisagem até onde a vista alcança. Concedo descanço aos pés que agora acomodam-se em sapatos menos ambiciosos. Penso mais na sombra das árvores. Penso na árvore genealógica, dando mais valor a seus ramos e raiz.
Meu voo agora é mais sensação do que aventura. O coração encontrou o ritmo. O tempo é um amigo querido te esperando na última estação.
Meu céu nem sempre está no alto. E, em alguns dias, consigo sentir a brisa doce que sopra a quem está no todo de tudo, ainda que o tudo seja apenas eu.
