segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A ostra e o outro



Você está trabalhando humildemente, ganhando seu quinhão de todo dia para não ter que matar o tal leão. Vem um sujeito e abre a porta da sua sala climatizada (por que você merece algum refresco) e já invade o espaço sem se anunciar. 

Sinto uma taquicardia e o estômago gemendo de vontade de botar pra fora o almoço e o sujeito. E ele fala pelos cotovelos e pelas demais articulações. Embora eu tenha paciência guardada na última gaveta, penso mesmo é em 3 tipos diferentes de morte lenta e dolorosa para o indivíduo. Não há como escapar. Abro a gaveta.

A esta altura do colóquio de um lado só, passo a observar a gesticulação espaçosa e o som da voz que parece uma conversa de gralhas. Eu pressinto que, em breve, o sujeito vai solicitar minha opinião seja lá do que for que ele esteja falando. Eu não entendo e não me esforço para entender. Subitamente, fico autista.
Olho para a porta e a vejo ainda aberta. Os 17°C preciosamente conservados agora indo embora. Deus existe?

Sinto-me desgraçada. Presa à boa educação. Então, encerro o episódio devolvendo um sorriso cretino e dizendo “bom final de semana para você também”. 

Levanto-me para fechar a porta. Penso nas ostras. E volto para a minha mesa/concha produzir pérolas de papéis.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

ENTER (linhas)

No aguardo da chuva para um dia abafado, revirei alguns sites de notícias para aquela atualização rotineira. Os mesmos fatos narrados das mais diversas maneiras. Fotos de tragédias em todos os ângulos possíveis. A narração da desgraça alheia.

Em 1 minuto de uma rápida passada de olhos fiquei sabendo que a atriz Fulana de Tal foi passear com o cachorrinho na praia. Notícia destacada na página como se fosse imperioso à nação saber do acontecido. E aquele astro da música "flagrado" aos beijos com a namorada em um simples jantar no restaurante. 

Penso no público faminto por esse tipo de novidade. Gente que precisa de anestesia diária para esquecer que a conta da luz está atrasada por que o governo autorizou a criação de algum imposto novo e quem paga o pato é, justamente, quem acha que é irrelevante saber disso.

Em link chamado "mulher" encontro maravilhosas dicas sobre educação dos filhos, maquiagem, uma nova técnica de depilação e o que será tendência na coleção outono/inverno. Sem falar na disposição para lançar matérias do tipo "como ser feliz no amor" e "o que os homens não gostam nas mulheres". 

E eu queria saber como vai a economia, a saúde, as mudanças nas regras da sociedade, até mesmo sobre a previsão do tempo. Mas o que eu buscava estava no rodapé, em fonte nº 10, sem foto alguma.
Mesmo mudando a página, indo a outro endereço eletrônico, nem os ditos renomados jornais ou revistas, permanece a exposição do banal. E como vende a frivolidade! Como se comentam os fatos irrelevantes!

Aliás, em meio à montanha de lixo noticioso, percebo o árduo trabalho de selecionar e reciclar os acontecimentos. Não bastasse ter que selecionar o que é realmente relevante, ainda é preciso filtrar bem a informação, retirar as tais impurezas de opiniões obtusas. Depois, você percebe que tudo parece apenas repetição. Mas, insistindo, vou ao próximo click em busca do novo.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Regras para ser feliz

Regra nº 1: Pergunte-se se quer ser feliz mesmo ou não.
Regra nº 2: Se a resposta for negativa, você já é feliz assim. Se for positiva, tente lembrar da sensação que teve na última vez em que matou a sede com um copo de água bem gelada.
Regra nº 3: Guarde esta sensação na memória. Felicidade acontece a todo instante e você está ocupado demais pensando grande.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O preço

Todo mundo tem um preço. Tudo é uma questão de fazer a oferta certa.
Nem sempre a moeda é de metal ou papel. Vejo comércio sendo feito com qualquer coisa.
Aquilo que o outro precisa ter e que eu tenho, de certa forma, me confere algum poder.
A moeda universal é o poder. Já foi o sal, já foi a seda, já foi a fé.
Mas o que se busca é o poder.
Crianças querem o poder sobre seus pais e exigem doces e brinquedos, talvez chamegos.
Adultos tornam o sistema mais complexo. A namorada quer poder barganhando com seus carinhos e elogios.
O colega de trabalho quer aquela promoção antes de você, mesmo que não tenho objetivos claros, mas é vaidade falando mais alto.
Leões lutam entre si por território de caça... e nós queremos matar leões por dia para termos mais poder.
Engana-se quem acha que é o dinheiro que corrompe. Antes de termos caráter, temos instinto. E não há satisfação maior que ter nas mãos os desejos dos outros, manipular e decidir, assim, feito um rei em seu castelo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A era da cretinice

Alguém viu a tal Era de Aquário por aí? Eu não tenho notado muita elevação espiritual e nem mudanças significativas.
Somos embalados à vácuo por programas de tv non sense, livros que ensinam o que todo mundo já sabe, músicas que fariam Mozart cortar as próprias mãos. Estamos entretidos com a vida alheia, deixando passar o tempo como se ele fosse de fonte inesgotável.
As mulheres não sabem o que fazer com a sua tão sonhada igualdade de direitos e os homens começam a perceber certa vantagem em deixar a batalha pesada para o sexo dito frágil.
Adultos infantilizados e crianças brincando de ser adultas.
O respeito é quase uma lenda urbana. A regra é viver para si e o outro que aguente.
Sexo e dinheiro são mantras. Amor é acessório e só encontra lugar naqueles textos infinitos, compartilhados em massa nas redes sociais. Não, amor não são palavras amontoadas.
O trânsito é uma via de guerra. A educação parece um fardo pesado demais e jogado de um lado para o outro, feito batata quente.
Eu fico confusa quanto ao que posso comer. Hoje saiu uma pesquisa dizendo para comer tomate e carne de frango. Mas, ainda ontem, outra pesquisa dizia que o tomate é cancerígeno e a carne de frango tem substâncias nocivas à saúde humana.
Em um único dia tudo muda mas nada realmente modifica.
Não se ouve o que o outro diz. Cada um está em seu próprio monólogo. 
Temos discursos bastantes para ações tão vazias. Vivemos de assinar acordos de paz, de cooperação, de ajuda mútua. Mas o que vale é o "olho por olho e dente por dente".
Continuamos sentados em frente à tv, com a barriga cheia de fast food enquanto, do outro lado da telinha, alguém mostra cenas de gente em pele e osso, morrendo em valas. Mudemos de canal, por favor. Só há espaço para o que agrada aos olhos.
A visão é dantesca, talvez nem Dante poderia suportar... mas, há de seguir em frente. Enquanto o globo ainda orbitar, tudo poderá ser diferente. Eu acredito.