sábado, 17 de março de 2012

As folhas de outono


Eu coleciono estações. Mas minha predileta é o outono. É sempre outono quando minha vida muda de direção. É sempre uma coincidência, mas deixe-me pensar que é por causa da estação.

Minhas lembranças caem ao chão, feito folhas do alto da árvore que amarela. São lembranças amareladas também. Efeito do tempo. Eu sou um pouco árvore, eu acho.

Acontece um outono em mim fora de época. Mas nunca o verão.
Sou de março. Meio Marte. Sou metade.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Revoltados de Pijama


Lá vem a turma da revolta de pijama. A Marcha da Sonolência. Eles chegam primeiro na segunda-feira e são os últimos a sair da semana, não sem antes reclamar ao infinito e além. Tudo bem que a reclamação é, até certo ponto, salutar. Todo ser humano precisa externar. Ninguém vive 24h na vibe sussa. 

O problema é que tem uma galera que reclama de tudo, mas de tudo mesmo! Não gosta quando chove, mas reclama do sol também. Não gosta de sertanejo universitário e acha que quem ouve isso tem que morrer, mas está bem feliz em casa ouvindo um pagodão, justamente o pagodão que criou a maioria das músicas que gerou essa moda sertanejo-grudentinha.

Esse pessoal também odeia a política. Falou em política é como chamar o Diabo para jantar. Já acha que fazer fogueira com a Capital Federal seria mais útil ao país do que tentar, ao menos, lembrar o nome do candidato a quem deu seu voto na última eleição. Aliás, sujeito vota nulo achando que vai ter a alma levada para o paraíso onde o esperam 77 virgens só de baby doll. 

Mas o movimento é organizado. Tem método simplificado e objetivo: matar e perguntar depois. A ideologia é básica, com muitos jargões e quase nenhuma argumentação. Toda a ideologia parece basear-se nos tratados intergalácticos “Se há fumaça, há fogo” e “Olho por olho, dente por dente”. 

Os revoltados de pijama são extremamente ativos. Eles saem às ruas imaginárias fazer protestos para o nada. São ágeis na arte da digitação rápida e com o maior número possível de erros ortográficos. O importante não é escrever corretamente, é atacar. Mestres em dar socos no ar. Autodidatas na linguagem do esculacho. Em outras palavras, apenas chatos virtuais.

Conhecer para entender e depois falar com o objetivo de transformar.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Onde estão as mulheres?

Onde foram parar as mulheres de verdade? Perdidas em meio a frases de Clarice Lispector? Ouvindo Adele até esgotar os ouvidos? Reclamando sem fim dos homens que não conquistaram? 

Pagando de princesas adocicadas em seus vestidos tão curtos que se pode ver até a alma por eles. Bebendo a tequila pura e proferindo palavrões, mas jurando ser santa. Confundindo sexo com amor e, por vezes, sem saber o que é amor e sem saborear o sexo. 

Critico o meu próprio gênero. Ser mulher nunca é fácil. Mas tudo fica mais difícil quando tantas de nós continuam em si mesmas perdidas.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A ostra e o outro



Você está trabalhando humildemente, ganhando seu quinhão de todo dia para não ter que matar o tal leão. Vem um sujeito e abre a porta da sua sala climatizada (por que você merece algum refresco) e já invade o espaço sem se anunciar. 

Sinto uma taquicardia e o estômago gemendo de vontade de botar pra fora o almoço e o sujeito. E ele fala pelos cotovelos e pelas demais articulações. Embora eu tenha paciência guardada na última gaveta, penso mesmo é em 3 tipos diferentes de morte lenta e dolorosa para o indivíduo. Não há como escapar. Abro a gaveta.

A esta altura do colóquio de um lado só, passo a observar a gesticulação espaçosa e o som da voz que parece uma conversa de gralhas. Eu pressinto que, em breve, o sujeito vai solicitar minha opinião seja lá do que for que ele esteja falando. Eu não entendo e não me esforço para entender. Subitamente, fico autista.
Olho para a porta e a vejo ainda aberta. Os 17°C preciosamente conservados agora indo embora. Deus existe?

Sinto-me desgraçada. Presa à boa educação. Então, encerro o episódio devolvendo um sorriso cretino e dizendo “bom final de semana para você também”. 

Levanto-me para fechar a porta. Penso nas ostras. E volto para a minha mesa/concha produzir pérolas de papéis.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

ENTER (linhas)

No aguardo da chuva para um dia abafado, revirei alguns sites de notícias para aquela atualização rotineira. Os mesmos fatos narrados das mais diversas maneiras. Fotos de tragédias em todos os ângulos possíveis. A narração da desgraça alheia.

Em 1 minuto de uma rápida passada de olhos fiquei sabendo que a atriz Fulana de Tal foi passear com o cachorrinho na praia. Notícia destacada na página como se fosse imperioso à nação saber do acontecido. E aquele astro da música "flagrado" aos beijos com a namorada em um simples jantar no restaurante. 

Penso no público faminto por esse tipo de novidade. Gente que precisa de anestesia diária para esquecer que a conta da luz está atrasada por que o governo autorizou a criação de algum imposto novo e quem paga o pato é, justamente, quem acha que é irrelevante saber disso.

Em link chamado "mulher" encontro maravilhosas dicas sobre educação dos filhos, maquiagem, uma nova técnica de depilação e o que será tendência na coleção outono/inverno. Sem falar na disposição para lançar matérias do tipo "como ser feliz no amor" e "o que os homens não gostam nas mulheres". 

E eu queria saber como vai a economia, a saúde, as mudanças nas regras da sociedade, até mesmo sobre a previsão do tempo. Mas o que eu buscava estava no rodapé, em fonte nº 10, sem foto alguma.
Mesmo mudando a página, indo a outro endereço eletrônico, nem os ditos renomados jornais ou revistas, permanece a exposição do banal. E como vende a frivolidade! Como se comentam os fatos irrelevantes!

Aliás, em meio à montanha de lixo noticioso, percebo o árduo trabalho de selecionar e reciclar os acontecimentos. Não bastasse ter que selecionar o que é realmente relevante, ainda é preciso filtrar bem a informação, retirar as tais impurezas de opiniões obtusas. Depois, você percebe que tudo parece apenas repetição. Mas, insistindo, vou ao próximo click em busca do novo.