Hoje eu não tinha nada para fazer, então, não fiz. Não tinha nada no que pensar, não pensei. Não tinha saudade para sentir, nem amor para exaltar, nem acontecimento para lamentar... hoje apenas vivi.
Fui dar uma de Narciso e me debrucei sobre o córrego de água só para dizer a mim mesma "gosto de você". Só por um dia, não me cobrei por coisas impossíveis, nem fiz um drama de vida, nem usei o véu da vergonha na cara. Tirei um dia de folga de tudo o que é regra, convenção, imposição ou simples obstrução em meu caminho.
Saí na rua de cara lavada. Alisei meus cabelos com os dedos e vesti o que não combinava na moda mas, sim, comigo. Comi para matar minha fome, bebi para saciar a sede e sentei-me à sombra do tapume sem aquela culpa pela preguiça que me acompanhava.
Hoje, não fiz uma social com amigos e me dei de presente a companhia de família. Tirei de perto a preocupação, a ansiedade e a fadiga do fardo ilusório de carregar o mundo nos ombros. Ouvi músicas antigas e de gosto duvidoso. Evitei o deboche e a intriga. Fiz de conta que tudo era faz-de-conta.
Agora, neste momento que promovo a ocupação territorial da minha cama pelo meu corpo, extraio da noite aquilo que ela tem de melhor: o saldo de um dia. E percebo, no barulho que fez a latinha da cerveja que abri, a vida é assim, um tanto de amargo e outro tanto de prazer. Basta saber degustar.

Inspirador! Me deu vontade de fazer o mesmo. Por que não, né? :)
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