Existe um gosto na minha boca de um doce que jamais provei. Mas sei que é doce e sei que é suave, feito as histórias ouvidas no colo dos meus saudosos avós.
Uma outra vez lembrei da carta de amor que nunca recebi. Mas sabia de cor as palavras nela escritas. Sabia com o coração de quem tinha saudade.
Lembro, como se tivesse sido ontem, da festa de aniversário de bem antes de nascer. Pois minha alma peregrina, teimosa de vida, não me deixa esquecer.
Certa vez lembre da música que não dancei por ter sapatos apertados demais. E lembrei, também, do vestido novo, cor de alfazema, que nunca tive. Lembrei do orvalho da manhã que não vi chegar enquanto deixava o corpo dormir.
Eu tenho em mim todas as lembranças de todas as vidas que pretendi. Mas, escolhendo viver somente uma, restaram-me apenas os recortes que fiz e colei no mural da minha imaginação. Assim, o que não esqueço, ainda sinto como se eu pudesse realmente ter estado ali.

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