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sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O pensamento

O que é o amor se não o momento em que o fôlego se perde no espaço entre mim e você?
O que é o amor se não um cheiro de chuva ao fim de uma tarde de verão?
O que é o amor se não o devaneio do poeta ou o sopro da infância?
O que é o amor se não a foto na estante e a lágrima no rosto?
O que é o amor se não o arrepio na pele ardente?
O que é o amor se não o verbo na primeira pessoa do plural?
O que é o amor se não a incerteza das horas que anunciam a manhã?
O que é o amor se não um amontoado de instantes?
O que é um instante na vida de quem ama?
E a vida de quem ama, não seria apenas um breve instante no oceano do tempo?
E, sendo tudo tão breve, tão momento, não seria o amor apenas esperança?
Pois que seja lapso, que seja eterno, desde que seja amante.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Regresso

Que saudades de mim!!! 
Eis que me vejo à porta de casa e, com um sorriso de viajante, reconheço-me!!! 
Quantos caminhos sinuosos percorri entre o perder-me de mim mesma até chegar aqui, no recomeço! 
Finalmente, deixo ao chão o fardo pesado da bagagem de tudo que vivi. 
Não renego as pedras, os espinhos ou as lágrimas... Tudo é parte de mim agora. 
Dou o passo. Passado. 
Entro em minha morada, percorro os espaços, paro em frente ao espelho. 
Como o filho pródigo que à casa torna, abraço-me demoradamente. 
Voltei. 
Ah! Que saudades tive de mim!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A Colcha

Entrei apressadamente em uma loja de artigos para cama, mesa e banho em busca de uma colcha para minha cama. Faltavam vinte minutos para fechar o estabelecimento e eu tentando escolher a combinação perfeita: estampa-tecido-preço. Esta parte foi fácil. Complicado foi responder à pergunta sobre qual o tamanho da cama. Oras! Não lembrava um só momento em que tivesse me deparado com a tal medida do móvel. Mas, procurei puxar pela minha memória fotográfica e cheguei à conclusão de que era uma cama muito grande, portanto, pedi pela colcha maior que houvesse ali. 
Conhecida por minha objetividade nas compras, não levei mais que dez minutos para decidir o que levar, mais uns cinco minutos para pagar e já me considerava uma recordista olímpica só pelo fato de ter saído da loja antes do horário de fechamento. Pensei que seria justo estabelecer este tipo de competição de modo oficial, com direito a entrega de medalha de ouro no pódio. Caminhei pela rua ostentando imaginariamente minha medalha de ouro na categoria “consumo nos cem metros rasos”.
Acontece que essas alegrias superficiais que criamos para passar o tempo na trivialidade costumam vir para pregar peças. Algo como uma pequena lição sobre a arrogância nossa de cada dia que nos dai hoje. Fui estender o artigo têxtil em cima da cama gigantesca e algo surpreendente aconteceu! A cama havia encolhido. Sim, somente esta era a explicação que julguei plausível, realística e aceitável no momento. Como poderia aquela cama ser menor que aquela sensação de vastidão que tenho ao deitar-me todas as noites? Como o espaço vazio que me circunda nela e me acolhe o sono nas noites frias pode ter reduzido? Para onde foram aquelas centenas de centímetros desocupadas do lado direito? E, enfim, quando foi que eu deixei de sentir saudade? Quando foi que eu me deixei?


terça-feira, 21 de maio de 2013

A memória das coisas que não vivi

Existe um gosto na minha boca de um doce que jamais provei. Mas sei que é doce e sei que é suave, feito as histórias ouvidas no colo dos meus saudosos avós.

Uma outra vez lembrei da carta de amor que nunca recebi. Mas sabia de cor as palavras nela escritas. Sabia com o coração de quem tinha saudade.

Lembro, como se tivesse sido ontem, da festa de aniversário de bem antes de nascer. Pois minha alma peregrina, teimosa de vida, não me deixa esquecer.

Certa vez lembre da música que não dancei por ter sapatos apertados demais. E lembrei, também, do vestido novo, cor de alfazema, que nunca tive. Lembrei do orvalho da manhã que não vi chegar enquanto deixava o corpo dormir.

Eu tenho em mim todas as lembranças de todas as vidas que pretendi. Mas, escolhendo viver somente uma, restaram-me apenas os recortes que fiz e colei no mural da minha imaginação. Assim, o que não esqueço, ainda sinto como se eu pudesse realmente ter estado ali.