Eu tenho uma grande paixão: carros. Mas não daqueles
fanatismos por detalhes e ficha técnica completa de um automóvel. Eu curto
carros, sem compromisso de me tornar especialista. Gostaria de realizar todos
os meus desejos consumistas neste quesito, mas minha condição financeira me
deixa a opção de apenas uma escolha, e uma escolha bem restrita.
Meu primeiro carro foi um modelito bem popular. De um
verdinho-água metálico, com motor singelo, um nanico de boa fé. Com ele fui
muito feliz, viajamos por estradas de todos os tipos. Me acompanhava bravamente
mesmo quando eu exigi mais do que poderia. Dia ou noite. Chuva ou sol.
Companheirão! Com o tempo, comecei a me interessar por outros. Sei lá, queria
me aventurar mais e ele reclamando do meu ritmo.
Um dia, passando por uma revenda, troquei olhares com outro
carro. Não foi intencional, juro! Apenas aconteceu. Ele era tudo o que eu vinha
procurando: forte e bonito. A paixão foi tão intensa que eu até ignorava aquela
cor prata e as rodas feias. Comprei-lhe rodas novas, tratei com carinho. Mas as
viagens foram ficando escassas, até tornarem-se tão somente planos, sem nunca
sobrar tempo para que ele me mostrasse tudo o que tinha para oferecer.
Assim, a relação foi se desgastando na mesmice. Idas e vindas
constantes em oficinas. Tornou-se um fardo. Tentei levar adiante. Eu tentei. Há
algumas semanas atrás, saímos rodar um pouco. Macio na estrada, obediente nas
marchas e esperto nas rotações. Foi perfeita sincronia.
No dia seguinte, ele acordou reclamando. Atravessou a cidade
aos solavancos, duro e indiferente. Qualquer relevo da rua era motivo para uma
infinidade de barulhos. Talvez a terapia da mecânica pudesse resolver, mas a
questão é que era hora de cada um seguir seu caminho.
E como toda relação que chega ao fim, mesmo que seja em um
consenso, foi triste. E o deixei na concessionária onde conheci meu carro
atual. Que, por sinal, tem aquela mesma cor irritante prata. Agora estou com um
1.8, de câmbio automático e com umas manias meio esnobes, mas confiável e
seguro. Não temos aquela relação de aventura, mas estamos nos conhecendo e, aos
poucos, talvez eu até aprenda a gostar de ser comandada por um câmbio
automático arrogante. Por hora, sentindo saudade de ouvir a rotação e
acelerar do jeito que minha alma gosta.

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