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sexta-feira, 24 de maio de 2013

O amor, o motor e a vida


Eu tenho uma grande paixão: carros. Mas não daqueles fanatismos por detalhes e ficha técnica completa de um automóvel. Eu curto carros, sem compromisso de me tornar especialista. Gostaria de realizar todos os meus desejos consumistas neste quesito, mas minha condição financeira me deixa a opção de apenas uma escolha, e uma escolha bem restrita.  

Meu primeiro carro foi um modelito bem popular. De um verdinho-água metálico, com motor singelo, um nanico de boa fé. Com ele fui muito feliz, viajamos por estradas de todos os tipos. Me acompanhava bravamente mesmo quando eu exigi mais do que poderia. Dia ou noite. Chuva ou sol. Companheirão! Com o tempo, comecei a me interessar por outros. Sei lá, queria me aventurar mais e ele reclamando do meu ritmo.

Um dia, passando por uma revenda, troquei olhares com outro carro. Não foi intencional, juro! Apenas aconteceu. Ele era tudo o que eu vinha procurando: forte e bonito. A paixão foi tão intensa que eu até ignorava aquela cor prata e as rodas feias. Comprei-lhe rodas novas, tratei com carinho. Mas as viagens foram ficando escassas, até tornarem-se tão somente planos, sem nunca sobrar tempo para que ele me mostrasse tudo o que tinha para oferecer.

Assim, a relação foi se desgastando na mesmice. Idas e vindas constantes em oficinas. Tornou-se um fardo. Tentei levar adiante. Eu tentei. Há algumas semanas atrás, saímos rodar um pouco. Macio na estrada, obediente nas marchas e esperto nas rotações. Foi perfeita sincronia.

No dia seguinte, ele acordou reclamando. Atravessou a cidade aos solavancos, duro e indiferente. Qualquer relevo da rua era motivo para uma infinidade de barulhos. Talvez a terapia da mecânica pudesse resolver, mas a questão é que era hora de cada um seguir seu caminho.

E como toda relação que chega ao fim, mesmo que seja em um consenso, foi triste. E o deixei na concessionária onde conheci meu carro atual. Que, por sinal, tem aquela mesma cor irritante prata. Agora estou com um 1.8, de câmbio automático e com umas manias meio esnobes, mas confiável e seguro. Não temos aquela relação de aventura, mas estamos nos conhecendo e, aos poucos, talvez eu até aprenda a gostar de ser comandada por um câmbio automático arrogante. Por hora, sentindo saudade de ouvir a rotação e acelerar do jeito que minha alma gosta. 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Tem festa!


Se você me perguntar se acredito em amor à primeira vista, eu responderei sim. Se você me perguntar se acredito em único grande amor, acredito. Como também acredito no amor que se constrói dia após dia com o tijolinho da perseverança. E também acredito no amor ciumento, no amor desapegado, no amor sazonal, no amor que nunca chega... Mas, realmente, no que mais acredito é no amor.

É sempre festa quando o Amor chega. O coração se enfeita e acende, brilha. O convidado mais especial é aguardado à porta da alma. Ele virá desta vez? Os olhos atentos aos sinais de que seja mesmo o Amor vindo devagar do outro lado da rua. A casa está em festa e preenche-se de outros convidados que sempre chegam antes do tão querido amigo.

Refrescamo-nos na brisa chamada Amizade, vestida em laços e fitas por sua mãe a Afeição. Dançamos animadamente com a Admiração e logo nos é apresentado um senhor de olhar muito sério e mãos firmes, por alguns, chamado Respeito. É de um moço muito bonito a música que parece vir de toda a parte, seu nome é Carinho. E antes que o convidado principal chegue enfim, você conhece as gêmeas Ansiedade e Expectativa. Duas tias velhas que teimam em te dar conselhos que não deveriam ser usados por ninguém.

Já no auge da festa, sua alma em traje de gala e os sapatos já anunciando o cansaço da espera, você se refugia de todos em uma pequena sala escura. Fugindo dos próprios pensamentos, abre uma pequena fresta na janela, apenas o suficiente para respirar melhor. E, quando já não se ouve mais a algazarra que tantos sentimentos fazem quando estão reunidos, então você relaxa na poltrona mais macia e já não espera.

Mas antes que possa fechar os olhos mais uma vez para adormecer por um longo tempo, antes que possa pedir que parem com a música, antes de apagar todas as luzes, bebe mais um gole na taça da esperança. Quase não percebe a presença de outro alguém ali. Alguém que sabia o melhor momento de te encontrar. O melhor momento para te surpreender. Por que o amor é sábio e somos aprendizes da vida toda diante dele.

O amor sempre chega. Se na sua festa ele não apareceu, talvez apenas tenha convidado o sentimento errado. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Bem mais

Eu... namorando o mar.
Viva o exagero, o excesso e a profusão! Sejamos sinceros em admitir que gostamos de fartura. 

Adoro encher meus olhos de tanto ver beleza. Ficar com bochechas de hamster de tanto comer delícias. Inflar o peito com todo o ar possível quando sinto aquele perfume. Esticar a cara toda naquela gargalhada. Espreguiçar o corpo em todas as direções antes de sair da cama. Ter um coração superlotado de gente amada. Ouvir a música predileta em looping eterno. 

Sim, eu gosto de um exagero bem distribuído pelo meu dia. Daqueles que preenchem as lacunas onde, de vez em quando, amontam-se tristezas. Gosto de ver o horizonte largo, o céu alto e as estradas sem fim. Eu gosto do muito, porque o pouco é para os conformistas. Eu desejo mais, sempre mais. 

Há quem diga que a felicidade é contentar-se com o menos, não ligar para a falta e ignorar o grande espaço vazio que te envolve. E eu acho que é só uma outra forma de ilusão. Se for para trocar seis por meia dúzia, fico com os meus desejos megalomaníacos de ir mais alto, mais longe e mais rápido. 

Não consigo estar à beira do mar sem ter vontade de abraçar o oceano inteiro. Não sei viajar sem ter necessidade de percorrer todos os caminhos. Não sei amar sem sentir por inteiro. Se a vida oferece, eu quero. E o que não vale a pena, não carrego em meus bolsos.