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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

A tempestade

Longe, na última linha do meu horizonte, há uma tempestade. Em meu céu de suave azul, repousam nuvens de algodão. Em meu céu repouso meu coração. Aqui, o que está em cima é como o que está embaixo... 
Não me convide para entrar na sua tormenta. Não me chame para o fim da estrada. Preencha-se do seu próprio vazio. 
Longe demais de mim, chove sua própria tristeza. Escoa pelo asfalto um tanto de terra, outro tanto de mágoa. Pois que esse vento transtornado nunca vem do leste. É filho do norte, da noite mais longa, da morte mais lenta. 
Meu céu tem sol nascente. Meu chão tem a rosa. Sou tríade. Sou una. Eu fico. Você, poeira.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O pensamento

O que é o amor se não o momento em que o fôlego se perde no espaço entre mim e você?
O que é o amor se não um cheiro de chuva ao fim de uma tarde de verão?
O que é o amor se não o devaneio do poeta ou o sopro da infância?
O que é o amor se não a foto na estante e a lágrima no rosto?
O que é o amor se não o arrepio na pele ardente?
O que é o amor se não o verbo na primeira pessoa do plural?
O que é o amor se não a incerteza das horas que anunciam a manhã?
O que é o amor se não um amontoado de instantes?
O que é um instante na vida de quem ama?
E a vida de quem ama, não seria apenas um breve instante no oceano do tempo?
E, sendo tudo tão breve, tão momento, não seria o amor apenas esperança?
Pois que seja lapso, que seja eterno, desde que seja amante.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Quando é que o amor chega?



 Quando é que o amor chega?

Ele chega quando estamos prontos para amar. Sem avisos e nem sinais. É tão simples que chegamos a desconfiar e até fazemos um monte de bobagens por conta disso. Acreditando e desacreditando algumas vezes. Como se saíssemos na rua despistando o amor, entrando em ruas erradas, dobrando em esquinas incertas, só para ter certeza de que é ele mesmo que nos acompanha.

Um dia desses, sem avisos e nem sinais, eu o encontrei. E, quase como todo o mundo, eu tentei despistá-lo de início. Tentei me convencer a duvidar. Mas quando realmente é amor, permanece. O amor fica na vida da gente apesar de haver obstáculos aparentemente intransponíveis. Apesar de haver a má intenção alheia, o olhar desaprovador de quem não tem afeto em si mesmo, apesar das opiniões a respeito, apesar das línguas ferinas e dos venenos... Ainda assim, o amor fica.

Eu o conheci quando estava pronta. Sem traços dos antigos erros. A mente relutou, mas meu coração o reconheceu de primeira. Minha alma o recebeu como quem andou separada de ente tão querido por um lapso muito grande de tempo, talvez eras. Nunca acreditei nas possibilidades de outras vidas, mas como explicar a sensação de familiaridade no teu abraço, no teu cheiro, na tua presença? Será mesmo que já não vivemos isso? Eu que andava sempre tão por mim mesma, já nem sei ver o mundo sem estar de mãos dadas contigo.

O amor me veio quando eu estava de alma limpa para entender o que é amor. Veio por que minha vida precisava de ti para ter mais sentido. Veio para me dar norte. Veio... e, talvez, tenha estado comigo a vida inteira aguardando a hora de nos apresentarmos por inteiro. E agora que nos achamos, quero permanecer contigo por toda a jornada, ser tua luz quando tudo mais for escuro. Quero ser a mão sempre estendida, o conforto, a prece e o riso da tua vida. Quero ser o que você é para mim todos os dias. Eu te amo, simples assim.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Nem todo brilho é ouro



Viver bem consigo mesmo é uma arte. Nem sempre a vida imita a arte. O que meus passos ao longo do caminho me ensinaram foi a difícil tarefa da aceitação. Ninguém precisa ser um ideal humano. Eu gosto de quem sou. Em mim mora a imperfeição, o erro e o engano. Mas não dou guarida à frustração de um objetivo inalcançável. Vou até onde minhas forças me levam. Meus atos podem ser falhos, porém, sinceros.
Aceito quem sou. Procuro melhorar. Porém, respeito meus limites. Só eu sei o que pode me fazer bem e o que pode me derrubar. Ao bem, meu foco. Ao mal, minha distância. Por amor a mim mesma desfaço os nós dos convívios forçados e fingidos. Não necessito da mão que ajuda enquanto a boca me desgraça. Rejeito a amizade dissimulada, o pseudo amor e o veneno destilado.
Sou o que sou sem esforço. Mantenho-me arisca, o mundo anda um perigo. Mais tranquilo é um único coração amigo do que uma centena de falsos sorrisos.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Desamor


O desamor é um dia cinza no céu de verão.
É um sorriso amarelo de mera educação.
O desamor é uma festa que acaba.
É a bola de sorvete que caiu no chão.
O desamor é um palhaço triste.
É um choro silencioso.
É sentir que o caminho acabou e ninguém chegou ao destino.
O desamor é um ponto final seco e árido depois de todas as palavras terem sido ditas.
Desamar é deixar que a vida leve o que não teve força para ser amor.

É mais que isso! É um desistir-se.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Eu não sei ser princesa

Eu não sei ser princesa, mas sempre quis viver meu conto de fadas. Às vezes falo palavrão, fico de porre, desço do salto, perco a vergonha na cara e a educação. Tenho meus dias ásperos em que desisto de ser rosa e visto-me de espinhos. Mas existem dias e... existem outros dias. 
E um dia te conheci. Foi quando a vida ficou melhor que o conto. Quando resolvi trocar fadas por flores. Foi quando descobri que príncipe encantado não supera um homem de coração largo. Nenhum castelo é maior que teu abraço.
Um dia saí da fantasia e fui viver o real. Em um dia assim te descobri. Por dias assim que quero viver para sempre, ainda que felicidade seja uma montanha russa. Gostar de alguém é, antes de mais nada, deixar alguém gostar de você também.


quarta-feira, 4 de junho de 2014

Faça amor. Não faça guerra!


Woodstock já era. A música mudou. O sonho acabou. Os ídolos morreram. A geração X foi decapitada pela Y. A Era de Aquarius virou inferno astral. E ficamos chatos...

A globalização mandou camponeses famintos para fábricas de algum tênis de grife, optando por morrer de cansaço do que de fome. O capitalismo selvagem virou atração de zoológico. Em seu lugar, um predador maior: a informação.

As redes sociais surgiram. Tornaram-se obrigação. Aproximaram pessoas para formar grupos e, assim, melhor separar uns dos outros. O telefone não comunica, apenas exibe seu formato novo. “Por favor”, “com licença” e “obrigado” são palavras vintage. 

Professores apanham. Animais de rua apanham. Mendigos queimam pelas calçadas. Alguém acha que outro alguém está enriquecendo urânio. Troca de mísseis em imagens 3D. 

Deus recebeu ordem de despejo junto com Alá, Buda, Tupã e qualquer integrante do grupo dos que possam fazer algum milagre. O Diabo trocou de sexo e, dizem as más línguas, agora se chama Mídia. A direita e a esquerda coligaram-se e o cidadão continua acreditando em duendes.

A comida é transgênica. O remédio é genérico. A educação é medíocre. A saúde mandou lembranças. Habeas corpus para ladrões e assassinos. O lar agora é uma prisão. O leão comendo salários. Os aposentados procurando emprego outra vez. Crianças dançando funk até o chão, ão, ão. O craque já não joga bola, só acende o cachimbo. Os idosos sentem saudade. E os adultos... bem, alguém viu algum adulto por aí?

Enquanto isso, lá em casa, continuamos economizando na conta de luz, da água e separando o lixo, porque isso deixa o mundo melhor, disse o moço da tv.

Por Lígia Cargnelutti
Texto originalmente publicado no blog Bordel Bordado e republicado no Portal Discorra

domingo, 1 de setembro de 2013

A saga sanguessuga

Andei observando a onda da vampiromania que tem arrastado multidões aos cinemas. É certo que o vampiro é, de longe, o mais irresistível personagem que a mente humana já produziu baseado na tríade imortalidade, beleza e inteligência. Quem não tem um vampiro como alter ego que jogue a primeira estaca. 

Mas o que surgiu recentemente foi a profanação do mito. Um tal de Edward Cullen e Bella Swan emergiram das páginas da ficção para cair nas graças de uma geração de jovens meramente mortais, comuns e confusos. Ainda, o romance entre os atores que interpretam tais personagens veio alimentando esta desastrada novela de amor e sangue. Tudo culminando em uma frustração generalizada quando o relacionamento dos atores é desnudado, mostrando que, fora das telas, são "gente como a gente". 

No encalço da saga de Edward e Bella, seriados, mais filmes, mais livros e mais produtos destinados a um público insaciável e monotemático. E eu pensando: como serão as relações amorosas deste pessoal? As Bellas da vida real, inseguras e indecisas. Os Edwards, choramingando e fugindo na primeira dificuldade. Um amor pautado no impossível, como se o impossível acontecesse a todo momento em nossas vidas. Como se apenas o impossível fosse digno de se amar e do tempo que temos.

Mas desde que o mundo é mundo e a humanidade anda sob dois pés que a imaginação vive tentando sobrepor-se à realidade. Uma luta entre o que gostaríamos de ser e o que realmente somos. E manter o jogo equilibrado é realmente vencer. 


sexta-feira, 24 de maio de 2013

O amor, o motor e a vida


Eu tenho uma grande paixão: carros. Mas não daqueles fanatismos por detalhes e ficha técnica completa de um automóvel. Eu curto carros, sem compromisso de me tornar especialista. Gostaria de realizar todos os meus desejos consumistas neste quesito, mas minha condição financeira me deixa a opção de apenas uma escolha, e uma escolha bem restrita.  

Meu primeiro carro foi um modelito bem popular. De um verdinho-água metálico, com motor singelo, um nanico de boa fé. Com ele fui muito feliz, viajamos por estradas de todos os tipos. Me acompanhava bravamente mesmo quando eu exigi mais do que poderia. Dia ou noite. Chuva ou sol. Companheirão! Com o tempo, comecei a me interessar por outros. Sei lá, queria me aventurar mais e ele reclamando do meu ritmo.

Um dia, passando por uma revenda, troquei olhares com outro carro. Não foi intencional, juro! Apenas aconteceu. Ele era tudo o que eu vinha procurando: forte e bonito. A paixão foi tão intensa que eu até ignorava aquela cor prata e as rodas feias. Comprei-lhe rodas novas, tratei com carinho. Mas as viagens foram ficando escassas, até tornarem-se tão somente planos, sem nunca sobrar tempo para que ele me mostrasse tudo o que tinha para oferecer.

Assim, a relação foi se desgastando na mesmice. Idas e vindas constantes em oficinas. Tornou-se um fardo. Tentei levar adiante. Eu tentei. Há algumas semanas atrás, saímos rodar um pouco. Macio na estrada, obediente nas marchas e esperto nas rotações. Foi perfeita sincronia.

No dia seguinte, ele acordou reclamando. Atravessou a cidade aos solavancos, duro e indiferente. Qualquer relevo da rua era motivo para uma infinidade de barulhos. Talvez a terapia da mecânica pudesse resolver, mas a questão é que era hora de cada um seguir seu caminho.

E como toda relação que chega ao fim, mesmo que seja em um consenso, foi triste. E o deixei na concessionária onde conheci meu carro atual. Que, por sinal, tem aquela mesma cor irritante prata. Agora estou com um 1.8, de câmbio automático e com umas manias meio esnobes, mas confiável e seguro. Não temos aquela relação de aventura, mas estamos nos conhecendo e, aos poucos, talvez eu até aprenda a gostar de ser comandada por um câmbio automático arrogante. Por hora, sentindo saudade de ouvir a rotação e acelerar do jeito que minha alma gosta. 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Tem festa!


Se você me perguntar se acredito em amor à primeira vista, eu responderei sim. Se você me perguntar se acredito em único grande amor, acredito. Como também acredito no amor que se constrói dia após dia com o tijolinho da perseverança. E também acredito no amor ciumento, no amor desapegado, no amor sazonal, no amor que nunca chega... Mas, realmente, no que mais acredito é no amor.

É sempre festa quando o Amor chega. O coração se enfeita e acende, brilha. O convidado mais especial é aguardado à porta da alma. Ele virá desta vez? Os olhos atentos aos sinais de que seja mesmo o Amor vindo devagar do outro lado da rua. A casa está em festa e preenche-se de outros convidados que sempre chegam antes do tão querido amigo.

Refrescamo-nos na brisa chamada Amizade, vestida em laços e fitas por sua mãe a Afeição. Dançamos animadamente com a Admiração e logo nos é apresentado um senhor de olhar muito sério e mãos firmes, por alguns, chamado Respeito. É de um moço muito bonito a música que parece vir de toda a parte, seu nome é Carinho. E antes que o convidado principal chegue enfim, você conhece as gêmeas Ansiedade e Expectativa. Duas tias velhas que teimam em te dar conselhos que não deveriam ser usados por ninguém.

Já no auge da festa, sua alma em traje de gala e os sapatos já anunciando o cansaço da espera, você se refugia de todos em uma pequena sala escura. Fugindo dos próprios pensamentos, abre uma pequena fresta na janela, apenas o suficiente para respirar melhor. E, quando já não se ouve mais a algazarra que tantos sentimentos fazem quando estão reunidos, então você relaxa na poltrona mais macia e já não espera.

Mas antes que possa fechar os olhos mais uma vez para adormecer por um longo tempo, antes que possa pedir que parem com a música, antes de apagar todas as luzes, bebe mais um gole na taça da esperança. Quase não percebe a presença de outro alguém ali. Alguém que sabia o melhor momento de te encontrar. O melhor momento para te surpreender. Por que o amor é sábio e somos aprendizes da vida toda diante dele.

O amor sempre chega. Se na sua festa ele não apareceu, talvez apenas tenha convidado o sentimento errado. 

sábado, 26 de janeiro de 2013

Não quero ser Jane Austen!

http://bit.ly/XI8sj4
Eu gosto de romantismo e, quando me apaixono, alcanço níveis altos no quesito. Mas não consigo admirar os que são românticos, os que são assim em tempo integral e sem férias. É o tipo de pessoa que transforma o simples ato de escovar os dentes em um suplício sentimental fervoroso por que a escova de dentes do ser amado não é mais par da sua, ou porque a escova de dentes do ser amado ainda é par da sua e, só por isso, vai postar o dia inteiro músicas melosas na sua página da rede social.

Até quando você gosta muito de alguém, romantismo tem limite. Funciona mais ou menos como aquela 'gracinha" que a criança faz e percebe que os adultos riram, então, fica ali repetindo e repetindo para aprisionar em si a sensação boa que é a de agradar. 

Acho lindo receber flores, ainda mais quando são as minhas preferidas, flores do campo. Mas acho profundamente irritante receber flores em todas as ocasiões que eram para ser especiais, pelo simples fato de que deixa de ser especial quando fica previsível. A vida não precisa ser uma novela da Jane Austen, acredite, ela pode ser mais fácil!

Eis que os românticos me parecem perigosos. Cometem atitudes inconvenientes por não conseguir segurar a vontade do romantismo. Gastam seus 1000 reais em bônus de torpedo com mensagens para o alvo amado em apenas 1 dia. Ficam distraídos e com frequência são pegos em flagrante pensando na morte da bezerra ao som de Djavan.

Mas estou esquecendo o ser romântico que não tem ninguém com quem gastar sua munição de amor. Então, a pessoa resolve direcionar aos amigos e familiares. Que bonitinho! Pena que fica chato depois do trigésimo post para você exaltando a amizade e finalizando com "eu te amo" em um fundo floral. 

Sou chata? Quase sempre. Mas se você se irritou com isso é provável que esteja se identificando em algum exemplo, então, você consegue causar mais chatice do que eu. 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Vida de cacto


Para quem já matou um cacto por falta de água, é compreensível que eu precise de ajuda para cuidar do meu jardim imaginário, a fim de que venham as benditas borboletas. Problemas de gente grande me consomem. Fico distraída de mim. Quando me dou conta, a grama virou mato, as flores murcharam e, das tais borboletas, só a lembrança. 

É quando preciso tirar tempo para cuidar desse terreno fértil, embora negligenciado. Mas, seria melhor se eu percebesse a falta que faço a mim mesma todos os dias, e não apenas quando tudo vira bagunça.

Preciso de menos números e mais cores. Menos papéis e mais boa vontade. Vidinha burocrática que me transforma em máquina. Automatizei sentimentos, péssimo! Uma bela manhã acordo e percebo a dureza e aspereza do que me cerca. Saudade de relva...

 Minha ideia de equilíbrio é viver na corda bamba. Sempre à mercê de arrebentar a corda. Concentro força demais em um só objetivo, esqueço-me de tudo. Como um apostador na mesa de pôquer, arriscando todas as fichas em seu par de Ases. E a sorte é um moleque brincando com vidas.

No fim das contas, o jardim permanece lá, esperando que eu apareça. Fico um tempo ali, plantando carinho entre as flores. Até que tudo esteja tão bucólico que eu precise respirar o ar das máquinas, dos números e dos papéis mais uma vez. E as borboletas vão e vêm, algumas esperam eu voltar, outras esperam que a vida coincida. Não existe regra que explique o que é viver.

domingo, 28 de outubro de 2012

Borboletas que não sabem voar


Em meus tenros 12 anos de idade, percebi que o belo é a perfeição e o amor, a possibilidade. Por outro lado, é meu olhar que condena ou eleva. Assim vejo o mundo, através de mim mesma e não do que se apresenta. E é o amor que torna a beleza possível em lugares impossíveis.

De tal sorte, vou conferindo beleza ao que passa por mim. Entendo que a via é de mão dupla. Haverá sempre um conceito alheio à minha espera. Estamos todos sujeitos uns aos outros. Então, acho ingênuo o esforço em estabelecer o padrão do que é belo. Da mesma maneira que acho em vão negar nossa tendência a padronizar tudo para facilitar o entendimento.

Ah! Quanta preguiça! Não somos feito as borboletas que apenas vivem suas etapas, pois não importa a combinação de cores de suas asas se elas não servem para voar. Ou os guepardos que correm velozmente sem pensarem se suas manchas estão bem distribuídas na pelagem. Tampouco abelhas, que são lembradas pela doçura do mel e não por parecerem todas iguais.

Se ando vendo pouca beleza é porque estou com o olhar da alma doente. Se apenas critico a tudo e a todos, sou eu que preciso de uma nova perspectiva. Porque ainda é mais fácil mudar a si mesmo do que ao mundo.

E o que será que Platão pensaria hoje em dia? 

sábado, 1 de setembro de 2012

Solidão não é deserto

Agora vamos falar de coisa boa, vamos falar de solidão. Isso mesmo! Que palavrinha temida e desrespeitada! Por muito tempo eu a equiparei à própria morte. Talvez pior que a morte (pois dessa, quem é vivo nada sabe), já que solidão é associada à rejeição, ao fracasso, à tristeza. 

Mudei minha visão a respeito dela. Criei certa afeição pela palavra. Pois tantas vezes vim a estar em estado de solidão mesmo na companhia de tanta gente. E mais outras tantas vezes, a desejei acima de tudo. Como temer a solidão se nos servimos dela a qualquer momento?

Famigerada solidão, é o que pensam os amantes. Mas, mesmo o amor precisa de solidão para não esgotar. Ainda que seja aquele momento só seu para ler um livro, para ouvir aquelas músicas que só você gosta, para andar de pijama e cabelos desgrenhados sem sentir culpa, ou ter um momento para pensar sem interferências externas. 



Solidão comparada ao deserto. Uma longa jornada sem ninguém para conversar, sem o afago, sem o porto seguro nos tempos de aflição. 

Estar sozinho é bom, é produtivo. Também é preciso afastar-se para enxergar o todo, ampliar o horizonte. Prosseguir no isolamento é decisão de cada um. Culpar aos outros por manter-se assim é despreparo de vida.

domingo, 12 de agosto de 2012

Pater Noster



Um domingo aos pais. De acordar cedo, apesar da ressaca, para abraçar seu pai-herói. Dia de lembrar com saudade gigante de quem já partiu. Dia de desejar ter conhecido. Dia de aproveitar a presença. Dia de ligar ao pai que mora longe e dizer “eu te amo”. Dia de presentear. E não importa que sejam meias outra vez, importa que seja carinho autêntico.

Talvez o pai não tenha tido tempo para todos os seus chamados. Talvez não tenha tido dinheiro para todos os seus pedidos de aniversário. Talvez tenha andado distraído por conta do trabalho. Talvez ele estivesse apenas tentando ser o melhor pai, da única maneira que soube ser.

Há quem não tenha orgulho dele. Que prefira dar um abraço a um pai postiço. Há quem não admita as semelhanças. Quem renega o sangue. Quem corta o vínculo. Haverá sempre a mágoa de criança que não brincou com seu pai.

Mas, hoje é domingo deles. Do pai e do filho, dos filhos do filho. É um dia de tios, de irmãos, de amigos. E, também, o dia da mãe que incorpora dois papéis. Simplesmente, dia de abençoar a função de ser pai, com todos os significados que possa haver.  

Se você tem a quem dizer “obrigado, meu pai”, que o faço não apenas nesse dia de agosto. Aproveite qualquer momento. Seja uma razão de alegria a quem só quer que você seja feliz. E, se acaso você não pode ter orgulho de seu pai, então, seja você o orgulho dos seus filhos.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Amor em desuso

Foi comprando o último par de sapatos que me veio a questão: transferência de titularidade do sentimento. Ando tão cheia de alguns sentimentos que gostaria de poder transferir a outrem.
Sinto-me sem tempo para todo este sentir em vão. Porque nada é mais inútil que ter um sentimento que não vai para ninguém. Feito aquele sapato que, talvez, vá ficar esquecido na caixa por um longo tempo. Um dia, no meio de um surto de Amélia, farei a faxina que vai decidir o destino do sapato: ainda meu ou de outro alguém.
Assim vejo o que vai em meu coração. Um amontoado de amor sem uso. Então, seria bom poder fazer o inventário do que sinto e transferir a quem lhe dê melhor destino. Preferiria compartilhá-lo no abraço, no beijo, no olhar do meu amado. Mas, o amor que não amo precisa de outro lugar para morar que não seja na caixa de sapatos.