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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Mexa-se!

Os muito inúteis que me perdoem, mas trabalhar é fundamental. Não pelo acúmulo ganancioso. Não pelo vício do processo. Não pela sede de poder. Mas pelo simples fato de ser útil. A quem? A si mesmo. De ter objetivos e seguir por caminhos. Ainda que o seu trabalho não seja rentável, ainda que não seja glamouroso, ou mesmo notável. 

Trabalhar não é ser uma mera peça na engrenagem que mantém o sistema. Fazer seu próprio sustento. Ir muito além da obrigação do talento ou do sucesso aos olhos dos outros. Mas olhar para si e reconhecer a própria capacidade. 

Jamais abandonar o sono latente na cama sem a coragem do guerreiro que precisa sobreviver nesta selva de pedra. Não ser o lacaio da preguiça que delega a tarefa a qualquer outro. Não ser o fraco que se refugia na sombra dos fortes. Não ser a vergonha no espelho, tão pouco a vergonha alheia. Que a brisa jamais seja o prêmio dos moralmente aleijados e oportunistas.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Os dois teimosos

Estou em férias, mas não em estado de férias, ou seja, minha Mente ainda trabalha. Meu Corpo não. Esse anda apegado ao sofá de casa, todo manhoso e sonolento. A Mente, coitada, andava com a agenda cheia de coisas importantes a fazer, coisas para garantir o futuro. Havia muito o que estudar, muito o que assimilar e todas as gavetas da vida para colocar em ordem. Obcecada, chegou a escravizar o Corpo, deixando-o sem dormir, esquecendo de alimentá-lo, nem ao menos levava mais para passear. 

Costumava ser uma dupla de sucesso, chegando sempre juntos e um respeitando as vontades do outro. Mas tem tempo que a relação anda tumultuada. O Corpo já não entende mais o que a Mente anda fazendo. Ele queria ir à praia e pegar um pouco de sol, sentir o sal do mar e ter sensações novas. A Mente acha que não é o momento, é preciso fazer coisas bem mais urgentes. De tal forma que o Corpo obrigou-se a perguntar a ela: afinal, que coisas são essas das quais você sempre fala mas nunca as vejo?

E deu-se a discussão do relacionamento!

Agora estão ambos magoados. Ele se sente colocado em segundo plano. Ela acha injusto que trabalhe pelos dois. Vendo que são obrigados a permanecer juntos, optaram por ignorar um ao outro e cada qual tenta fazer o que bem entende. O Corpo se recusa a sair do sofá e a Mente insiste em torturá-lo com urgências que nem existem. Enquanto isso, em meio ao tempo perdido, levanto a inútil bandeira branca da paz. 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Vida de cacto


Para quem já matou um cacto por falta de água, é compreensível que eu precise de ajuda para cuidar do meu jardim imaginário, a fim de que venham as benditas borboletas. Problemas de gente grande me consomem. Fico distraída de mim. Quando me dou conta, a grama virou mato, as flores murcharam e, das tais borboletas, só a lembrança. 

É quando preciso tirar tempo para cuidar desse terreno fértil, embora negligenciado. Mas, seria melhor se eu percebesse a falta que faço a mim mesma todos os dias, e não apenas quando tudo vira bagunça.

Preciso de menos números e mais cores. Menos papéis e mais boa vontade. Vidinha burocrática que me transforma em máquina. Automatizei sentimentos, péssimo! Uma bela manhã acordo e percebo a dureza e aspereza do que me cerca. Saudade de relva...

 Minha ideia de equilíbrio é viver na corda bamba. Sempre à mercê de arrebentar a corda. Concentro força demais em um só objetivo, esqueço-me de tudo. Como um apostador na mesa de pôquer, arriscando todas as fichas em seu par de Ases. E a sorte é um moleque brincando com vidas.

No fim das contas, o jardim permanece lá, esperando que eu apareça. Fico um tempo ali, plantando carinho entre as flores. Até que tudo esteja tão bucólico que eu precise respirar o ar das máquinas, dos números e dos papéis mais uma vez. E as borboletas vão e vêm, algumas esperam eu voltar, outras esperam que a vida coincida. Não existe regra que explique o que é viver.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A gestão do desconhecimento

Quando escolhi ir para o funcionalismo público foi por conta do medo do desemprego. Por muitos anos vivi na rotina de matar um leão por dia e, ainda assim, dormir intranquila sem saber se pela manhã meu emprego ainda estaria esperando por mim. Medo de não pagar o aluguel, de dever ao banco, de sub-sobreviver.

Foi por esta única razão que fiz minha escolha. Estudei com dedicação que nunca tive nos tempos de escola. Enfim, um dia consegui. E lembro que a sensação foi como ganhar na loteria (embora eu nunca tenha ganho nem em rifa). 

Mas a realidade é muito diferente do que o senso comum imagina. Porque eu também era daquelas pessoas que ficava repetindo bobagens das quais nunca tive conhecimento: funcionário público é tudo marajá; trabalham quando querem; não fazem nada; etc. Isso nada mais é do que ser papagaio de pirata, só repetindo sem ter ideia do que se está dizendo. 

Minha chegada nesse universo peculiar foi difícil. Raros são os órgãos preparados para receber gente nova na folha de pagamento. Em empresas privadas, a qualificação e aperfeiçoamento do funcionário é um investimento. A motivação de pessoal é ferramenta indispensável. A ideia de liderança é tão crucial que os administradores modernos não se descuidam e vivem antenados às necessidades externas e, também, internas. Porque tudo é um único processo em que há um objetivo a ser alcançado.

O que ocorreu comigo é quase como uma decepção amorosa. A segurança financeira tornou-se pouco compensadora frente às desvantagens, a meu ver cada vez mais abundantes. Mas, por enquanto, insisto. Trabalhar é preciso.

Ser funcionário público é sair da cama todos os dias para trabalhar sabendo que a motivação está cada vez mais escassa e depende unicamente de você mesmo. É sair de seu lar consciente de que não haverá reconhecimento, pelo contrário, é ouvir de um vagabundo qualquer que ele paga nossos salários. É fazer o que tem de ser feito mesmo sabendo que seremos escalpelados pela ideia geral de que somos fantasmas ou preguiçosos. 

Mas como trabalhadores que somos, comuns, simples, normais, continuamos saindo todos os dias de casa para cumprir com as obrigações, muitas delas feitas com imensa satisfação. Apesar de tudo, aprendemos a manter o respeito e a dedicação à fonte de nosso sustento. E o que nos falta mesmo, é liderança verdadeiramente interessada e competente, que ajude a não se criar joio onde há o trigo.