domingo, 26 de agosto de 2012

Me segue que eu te sigo... e te esqueço!


Não entendo o comportamento humano. Mas passo muita parte do dia tentando entender, embora não seja profissional da área. Quando o assunto é gente, tudo é paradoxo, complexo, absurdo ou efêmero. Agora, joga aí a tal da rede social.

Tudo começa com um nick. E já vem a bizarrice por aí. Tem de tudo: do Batman até o Thyaghinho23. Claro que existem os apelidos simples. Mas a normalidade não é aqui o foco.

Próximo passo é escolher a imagem. O superestimado avatar (porque chamar simplesmente de imagem não é coisa de gente conectada). Tem que ser uma imagem que transmita uma mensagem. Que te mostre como um ser legal, divertido, bonito, inteligente, perspicaz, estiloso, misterioso, seguro, sexy, invencível, indestrutível e inoxidável! Não conseguiu uma imagem sua assim? Vai de foto de alguma celebridade que, só na sua mente, parece muito com você ou com que você gostaria de parecer. Vale personagem de desenho animado, de filmes e vale fingir despretensão.

E agora? Tem um apelido e uma imagem. Mas tem algo a dizer ou mostrar? Novos verbos: postar e tuitar. Chuva de ‘curtir’, ‘compartilhar’ e ‘me segue que eu te sigo’.

E onde está a interação? Para quê tanto esforço em criar uma imagem que não leva a nada e a ninguém? Não soma e não avança. Somos resmungos sociais. Balaio de reclamações uns dos outros. Rasgação de seda quase como troca de favores.

Estou isenta de culpa? Não. Sou parte do grupo dos conectados. Sinto falta da rede. Faço minha autocrítica e não me poupo. Só acho que não faz sentido tanta conexão e, ainda assim, permanecermos isolados.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Alô?


Celular é arma. Qual de nós já não sofreu um atentado à paciência em razão deste objeto maravilhoso? Quem já não foi acordado às 5h de uma bela madrugada? E aquela voz embaçada exalando álcool pela via telefônica só para te dizer que "te considera muiiiiiito". Ou seu foco no discurso de um palestrante interrompido de maneira hedionda por um toque musical numa versão MC Catra.

Ah, amigos! Celular é objeto bélico. De uso indiscriminado nos momentos mais inconvenientes. 
Pior quem devolve o tiro. Pega o maldito e liga para a mamãe (porque mães não podem esperar) enquanto dirige sem notar a buzina do carro vizinho que o alerta da bobagem. Depois xinga a mãe do motorista, a avó do motorista e até a geração que nem veio.

No restaurante, é indigesto. Entre a salada e a sobremesa, falação inútil é o prato principal. Quanta urgência há em falar ao telefone que não possa esperar o tempo da mastigação? Além de fazer alvo os inocentes que apenas estão tentando se alimentar. Fica o mundo sabendo do seu problema com Fulano que não respondeu seu torpedo enviado 1 minuto antes e a suprema ansiedade não permite esperar. 

Na escola é mais importante enviar foto do cabelo desgrenhado do professor do que tentar entender o que todos estão fazendo ali. No ônibus é a própria definição da desgraça. Gente ouvindo chiados em volume máximo sem fones de ouvido. Viagens noturnas com sono assassinado pela luz do objeto agora usado para joguinhos. A tia velha que não para de matraquear fofocas enquanto tudo que você queria era dormir um pouquinho.

E agora temos foto de tudo. Antigamente tínhamos que ter motivos para fotografar. Um amigo distante que reencontramos, uma reunião festiva da família, um nascimento, um casamento, uma conquista na vida, o primeiro carro, etc. Agora nossos motivos são a primeira coisa que os olhos apontam: o cadarço do tênis, um prato de comida, a árvore da rua, a outra árvore da rua, mais uma árvore da rua...

Embora seja vítima dessa arma,  também sou a pessoa que puxa o gatilho. Não vivo sem meu celular. Tenho aprendido a dominar o uso e condicioná-lo ao que realmente é seu verdadeiro objetivo: comunicar.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

No Topo do Mundo

Na infância os voos eram determinados pela altura do pé de goiaba, pela altura do muro da escola, pela altura de pai e mãe no alto de suas sabedorias.

No início da fase adulta os voos ficaram mais altos. E toda a emoção deles dependia da altura do salto do meu sapato, ou daquela bebida que acabara de descobrir me elevando ao ponto mais alto da alegria. E, ainda, na altura do pulo no escuro enquanto caía nos braços de alguém.



Mas, na fase um tanto mais madura, a altura do voo não é mais importante. E você descobre que rasantes suaves te deixam mais elevada, mais serena que nuvens de verão. Você descobre que aquele muro da infância nem era tão alto assim. Que o velho pé de goiaba não é a torre de um castelo.

Agora, aproveito melhor a paisagem até onde a vista alcança. Concedo descanço aos pés que agora acomodam-se em sapatos menos ambiciosos. Penso mais na sombra das árvores. Penso na árvore genealógica, dando mais valor a seus ramos e raiz. 

Meu voo agora é mais sensação do que aventura. O coração encontrou o ritmo. O tempo é um amigo querido te esperando na última estação.

Meu céu nem sempre está no alto. E, em alguns dias, consigo sentir a brisa doce que sopra a quem está no todo de tudo, ainda que o tudo seja apenas eu.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A Metade


O meu copo está meio vazio. Tenho andado pessimista. Meu olhar endurecido e impaciente. Trago na voz o sarcasmo para amenizar o peso das coisas da vida. Meu copo está meio vazio.

Sento-me no bar e já não bebo meu drink preferido. Ouço a música e meu corpo pede inércia. Estou sem ritmo. Parada na estrada da vida, como quem pede carona aceitando qualquer destino.

Cansada de pessoas todos os dias. Acho um fardo esta tal alegria vendida, surrupiada dos bolsos de um bêbado distraído. Não encontro o sorriso genuíno. Sentimentos desonestos trancados nas salas de escritórios. Vejo gente e não vejo ninguém.

Sim, queria transbordar meu copo meio vazio. Ou esvaziá-lo com a sede dos andarilhos. A boca entreaberta, duvidosa quanto ao sabor, não avança. E tudo que faço é permanecer.

Parece um mar de pequenos diamantes, mas são as luzes da cidade ficando mais distante. Afasto-me para ver o todo. Um todo cada vez mais nada. Queria ser parte de alguma parte. Mas flutuo. Livre, meio livre. Sou eu ou é o copo que está meio vazio?

domingo, 12 de agosto de 2012

Pater Noster



Um domingo aos pais. De acordar cedo, apesar da ressaca, para abraçar seu pai-herói. Dia de lembrar com saudade gigante de quem já partiu. Dia de desejar ter conhecido. Dia de aproveitar a presença. Dia de ligar ao pai que mora longe e dizer “eu te amo”. Dia de presentear. E não importa que sejam meias outra vez, importa que seja carinho autêntico.

Talvez o pai não tenha tido tempo para todos os seus chamados. Talvez não tenha tido dinheiro para todos os seus pedidos de aniversário. Talvez tenha andado distraído por conta do trabalho. Talvez ele estivesse apenas tentando ser o melhor pai, da única maneira que soube ser.

Há quem não tenha orgulho dele. Que prefira dar um abraço a um pai postiço. Há quem não admita as semelhanças. Quem renega o sangue. Quem corta o vínculo. Haverá sempre a mágoa de criança que não brincou com seu pai.

Mas, hoje é domingo deles. Do pai e do filho, dos filhos do filho. É um dia de tios, de irmãos, de amigos. E, também, o dia da mãe que incorpora dois papéis. Simplesmente, dia de abençoar a função de ser pai, com todos os significados que possa haver.  

Se você tem a quem dizer “obrigado, meu pai”, que o faço não apenas nesse dia de agosto. Aproveite qualquer momento. Seja uma razão de alegria a quem só quer que você seja feliz. E, se acaso você não pode ter orgulho de seu pai, então, seja você o orgulho dos seus filhos.