quinta-feira, 19 de setembro de 2013
domingo, 15 de setembro de 2013
A Capa do Disco
Quando entrei na adolescência (e já faz tempo!) ir à loja de
discos era uma diversão e uma oportunidade de fazer descobertas interessantes. Naquele
tempo não existia a internet. Dava para contar nos dedos de uma só mão e
sobravam dedos para dizer quantas revistas sobre música existiam nas bancas. Morar
em cidade pequena na fronteira pantanosa do Brasil também não ajudava muito a
ficar atualizada com o mundo. O famoso
canal de música ainda não havia nascido em terra tupiniquim. O rádio ainda era
o melhor meio.
Então, algumas vezes ao ano, meu pai me permitia gastar uns
trocados comprando LP’s. Mas, como a grana liberada era mínima e os discos eram
muitos nas prateleiras, escolher era um martírio: ou optava pelo certo, ou
atirava no duvidoso na esperança de ter tido sorte. Os títulos eram tantos e as
capas tão fascinantes! No final, acabava indo pelo óbvio. E a chance de deixar me surpreender ficava
para trás, nos discos que eu preferi não arriscar.
Lembrando-me dessa época, percebi que meu método da escolha
segura foi adaptado para outros setores da minha vida. Somente muitos anos mais
tarde, decidi fazer apostas. Mas o risco fica maior ao apostar no desconhecido
quando você já está longe do ponto de partida. E você tem que ser rápido ao
jogar os dados na mesa, ou ficará para sempre os segurando nas mãos e pensando “e
se eu tivesse apostado?”.
É claro que não ganhei todas as apostas que fiz. Também fiquei
empolgada com alguns ganhos e apostei demais até perder. Fiquei arrogante. Fiquei
frustrada. Mas, as vezes que fiz a escolha certa, levando em conta apenas o que
eu queria para mim, essas foram as vezes que fizeram tudo valer a pena. O que
tento dizer é que, em algum momento da vida, você precisa experimentar comprar
um disco pela capa.
domingo, 1 de setembro de 2013
A saga sanguessuga
Andei observando a onda da vampiromania que tem arrastado multidões aos cinemas. É certo que o vampiro é, de longe, o mais irresistível personagem que a mente humana já produziu baseado na tríade imortalidade, beleza e inteligência. Quem não tem um vampiro como alter ego que jogue a primeira estaca.
Mas o que surgiu recentemente foi a profanação do mito. Um tal de Edward Cullen e Bella Swan emergiram das páginas da ficção para cair nas graças de uma geração de jovens meramente mortais, comuns e confusos. Ainda, o romance entre os atores que interpretam tais personagens veio alimentando esta desastrada novela de amor e sangue. Tudo culminando em uma frustração generalizada quando o relacionamento dos atores é desnudado, mostrando que, fora das telas, são "gente como a gente".
No encalço da saga de Edward e Bella, seriados, mais filmes, mais livros e mais produtos destinados a um público insaciável e monotemático. E eu pensando: como serão as relações amorosas deste pessoal? As Bellas da vida real, inseguras e indecisas. Os Edwards, choramingando e fugindo na primeira dificuldade. Um amor pautado no impossível, como se o impossível acontecesse a todo momento em nossas vidas. Como se apenas o impossível fosse digno de se amar e do tempo que temos.
Mas desde que o mundo é mundo e a humanidade anda sob dois pés que a imaginação vive tentando sobrepor-se à realidade. Uma luta entre o que gostaríamos de ser e o que realmente somos. E manter o jogo equilibrado é realmente vencer.
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sexta-feira, 2 de agosto de 2013
O Sonho
De repente você acorda do sonho
adocicado que andou chamando de vida. Acorda e acha tudo muito estranho. Leva
tempo até que os olhos (de novo olhar) habituem-se a ver o que antes nunca foi
percebido. Por quanto tempo eu dormi? Reconheço poucos rostos e até as ruas
mudaram as esquinas.
Sim, você acorda em um susto para
um mundo novo que ainda é o mesmo velho mundo de sempre. Quero voltar para o
sonho macio e fácil. Mas, ainda que eu possa adormecer outra vez, o sonho nunca
se repetirá. Nunca mais aquele corpo etéreo. Nunca mais aquela sensação de
flutuar.
Deposito sem confiança meus pés
no chão áspero. Tento encontrar alguma lembrança boa que me sirva de apoio
antes de tentar algum passo. No sonho eu não precisava saber para onde ir. Não
precisava conter a vontade. Não precisava de um porquê.
Respiro fundo o ar indiferente,
frio. Respiro e avanço. Preencho meus bolsos com as coisas que, dizem, precisarei carregar. Pesa-me. Lembro-me do sonho, agora, cada vez mais sonho. Começa a vida
nesta fração de segundo onde todas as coisas acontecem: entre o sopro de Morfeu e a chegada de Aurora.
segunda-feira, 29 de julho de 2013
Um duende chamado Otimismo
Eu não gosto de otimistas. São irritantes em seus sorrisinhos medonhos de alegria plastificada. Detesto suas frases prontas de pára choque de caminhão. Parecem ter caído de um comercial de margarina. Otimistas me causam urticária, dor de cabeça, náuseas e, desconfio, também a labirintite. Eles simplesmente não respeitam o seu direito de ver tudo pelo lado mais trágico, dramático e problemático. Possuem aquela petulância de achar que podem levantar o seu astral sem a sua permissão. Um atrevimento!
É sempre de um otimista a frase "há males que vêm para o bem" ou "depois da tempestade vem a bonança". E não basta proferir a bobagem, ele precisa fazer algo para potencializar o efeito laxativo que é sua presença. Um otimista despreza totalmente a vontade alheia de obedecer a Lei de Murphy. Ele ignora a sua necessidade de autocomiseração e te importuna com uma visão de futuro esperançosa quando tudo o que você mais quer é reclamar do presente e culpar o passado.
Mas, o mais irônico de tudo é que otimistas são como o remédio amargo: pode ser difícil de engolir, mas vai te fazer bem.
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